Cabe aqui uma reflexão que pode contribuir para o debate e ajudar a compreender melhor o que está por trás de determinadas manifestações políticas.
O que impressiona nessas manifestações é perceber
que, no Nordeste brasileiro, também existem pessoas com pensamentos e atitudes
nazifascistas, que durante muito tempo permaneceram caladas, escondendo suas
verdadeiras convicções. Talvez isso seja herança de uma cultura marcada pelo
coronelismo escravocrata, pelo patriarcado, pelo machismo, pela homofobia e
pelo pensamento eurocêntrico, americanizado e submisso aos interesses das
elites.
É uma mentalidade que se alimenta da mentira
programada para iludir pessoas desinformadas ou conquistar a adesão de
indivíduos mal-intencionados, que, mesmo sem possuir um centavo no mercado
financeiro, defendem e levantam as bandeiras do grande capital. Muitas vezes,
vivem mais da aparência do que da própria realidade social em que estão
inseridos.
Mas há também outro caminho que alimenta esse
pensamento: a ignorância, a falta de conhecimento, a ausência de consciência
crítica e, em alguns casos, a própria crueldade humana.
Na perspectiva do Evangelho, aqueles que hoje
defendem a concentração de riquezas, a exploração dos pobres e a manutenção dos
privilégios estão muito distantes dos ensinamentos de Jesus de Nazaré. São, na
prática, traidores de sua mensagem de justiça, solidariedade e partilha.
A Bíblia é muito clara quando denuncia a exploração
e a concentração de riquezas. Em Provérbios 13:11, encontramos a advertência:
“A riqueza acumulada pela exploração humana ajunta no aumento da desigualdade”.
Em Lucas 18:24-25, Jesus faz uma crítica
contundente à riqueza e ao apego aos bens materiais, afirmando que é mais fácil
um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de
Deus.
Leiam também Atos dos Apóstolos 4:32-37. Ali
encontramos uma experiência de comunidade em que os primeiros cristãos compartilhavam
seus bens, colocavam tudo em comum e procuravam garantir que ninguém passasse
necessidade. É uma expressão concreta de solidariedade, igualdade e compromisso
coletivo. Uma experiência que nos permite refletir sobre os valores de uma
sociedade baseada na partilha, e não na exploração do ser humano pelo ser
humano.
Jesus não foi indiferente às desigualdades de seu
tempo. Sua mensagem tinha lado: o lado dos pobres, dos humildes, dos excluídos
e dos explorados. Maria, sua mãe, também expressou essa consciência de
libertação no Magnificat, registrado em Lucas 1:52-53:
“Derrubai dos seus tronos os poderosos e exaltai os
humildes. Encham de bens os famintos e despediu os ricos.” Devido a essa
posição política humanitária e um Reino de igualdade, justiça e fraternidade, Jesus
foi preso, torturado, crucificado e assassinado. Para entender quem são os
assassinos de hoje que escolheram Jesus em vez do ladrão Barrabás é a mesma
extrema direita global.
Nesse contexto não podemos esquecer que o
analfabetismo político está presente em todas as classes sociais. É justamente
essa falta de consciência crítica que conduz à alienação e impede muitas
pessoas de fazer uma leitura mais profunda da realidade, de compreender o que
está por trás dos discursos e de reconhecer os interesses que se escondem por
trás das disputas políticas.
Como nos alerta a conhecida reflexão atribuída a
Bertolt Brecht: “O pior analfabeto é o analfabeto político”. É aquele que não
procura compreender a sociedade em que vive, não questiona as relações de
poder, não reconhece as desigualdades e, muitas vezes, não consegue sequer
compreender sua própria condição de classe.
Por isso, a luta de classes não é uma invenção de
quem luta por justiça social. É uma realidade histórica que também encontra na
Bíblia denúncias contra a exploração, a opressão e a concentração de riquezas.
Afinal, de que lado você esta: do lado dos
poderosos que acumulam riquezas, oprimem e exploram ou do lado dos humildes que
lutam por dignidade, partilha, justiça e igualdade?
Leonardo Sampaio
Educador e memorialista.
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