domingo, 1 de novembro de 2026

O PT E A LUTA DE CLASSES

 O Partido dos Trabalhadores (PT) é uma das maiores expressões da organização política da classe trabalhadora brasileira e reúne milhões de filiados em todo o país. É formado por trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, professores, educadores, cientistas, escritores, poetas, artistas, intelectuais e militantes sindicais e dos movimentos sociais, unidos por diferentes bandeiras e pela defesa de um Brasil mais justo, democrático, fraterno e com distribuição de riquezas.

Nossa luta histórica é por um país onde a riqueza produzida pelo trabalho não fique concentrada nas mãos de uma pequena parcela da sociedade, enquanto milhões de brasileiros enfrentam a pobreza, a fome e a falta de oportunidades.

Temos experiências concretas para apresentar. Os governos do PT desenvolveram políticas públicas que contribuíram para retirar o Brasil do Mapa da Fome, reduzir a pobreza extrema, ampliar o acesso à educação, fortalecer os direitos sociais e promover oportunidades para milhões de brasileiros. Essas conquistas fazem parte da história que defendemos, sem deixar de reconhecer que toda organização política precisa ser permanentemente cobrada, fiscalizada e aperfeiçoada.

O combate à corrupção também deve ser uma bandeira permanente. O dinheiro público pertence ao povo e precisa ser administrado com transparência, responsabilidade e respeito. Nenhum partido está acima da fiscalização, e qualquer denúncia deve ser apurada com seriedade, sem condenações antecipadas e sem julgamentos seletivos.

O PT nasceu das lutas dos trabalhadores e trabalhadoras e tem, em sua trajetória, o compromisso com a defesa dos direitos trabalhistas, da democracia, da justiça social e dos setores historicamente marginalizados. Nossa referência é uma sociedade fundamentada na fraternidade, na solidariedade, na igualdade de oportunidades, na equidade e nos direitos humanos.

Por isso, chamar indiscriminadamente o petista de ladrão não é apenas uma ofensa a um partido. É desrespeitar milhares de trabalhadores, militantes e pessoas que dedicam parte de suas vidas à organização popular e à construção de um projeto de transformação social. Quem comete irregularidades deve responder individualmente por seus atos, independentemente de partido ou posição social. Mas não podemos aceitar que a generalização seja utilizada como instrumento de perseguição política e desqualificação da militância popular.

A luta de classes também aparece na disputa entre projetos de sociedade: de um lado, os interesses daqueles que defendem a concentração de riquezas e a preservação de privilégios; do outro, os que lutam pela distribuição de renda, pela valorização do trabalho e pela garantia de direitos.

É importante lembrar que, na perspectiva do Evangelho, Jesus de Nazaré fez uma opção pelos pobres, pelos humildes e pelos excluídos. Em Lucas 18:24-25, encontramos sua advertência: é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus.

E Maria, sua mãe, no Magnificat, registrado em Lucas 1:52-53, proclamou uma mensagem de transformação social:

“Derrubai dos seus tronos os poderosos e exaltai os humildes. Encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos.”

Essa mensagem continua provocando nossa consciência diante das desigualdades sociais.

É contraditório ver trabalhadores, pessoas pobres e cidadãos que dependem dos serviços públicos defenderem, sem reflexão crítica, projetos políticos que priorizam a concentração de riquezas, a redução de direitos e a manutenção de privilégios. É o que podemos chamar de alienação de classe: quando alguém deixa de reconhecer seus próprios interesses sociais e passa a defender projetos que favorecem grupos economicamente privilegiados.

Não se trata de impedir ninguém de pensar diferente ou escolher seu partido. Trata-se de compreender que a consciência política exige conhecimento, leitura de mundo e reconhecimento da própria realidade social.

Nem Jesus de Nazaré escapou daqueles que se incomodavam com sua mensagem de justiça, partilha e libertação.

A luta de classes continua presente na sociedade brasileira. E o PT, com sua história, suas contradições, suas conquistas e seus desafios, faz parte dessa disputa política e social.

Afinal, a quem interessa a concentração de riquezas? E quem deve lutar para que o fruto do trabalho seja compartilhado com justiça?

Leonardo Sampaio

Educador, professor, poeta, escritor e memorialista.

 

A LUTA DE CLASSES SE AFLORA NO BRASIL

 A questão central da conjuntura política brasileira é a luta de classes. Precisamos compreender que, por trás das disputas partidárias, dos discursos moralistas e das manifestações políticas, existe um confronto histórico entre projetos de sociedade, interesses econômicos e diferentes concepções de desenvolvimento para o Brasil.

De um lado, temos uma herança conservadora, colonialista e escravocrata, que insiste em preservar privilégios e concentrar riquezas. De outro, temos os movimentos populares, os trabalhadores do campo e da cidade e os setores que lutam por democracia, soberania nacional, distribuição de renda e justiça social.

O capitalismo neoliberal, quando subordinado aos interesses dos grandes grupos econômicos e financeiros internacionais, procura ampliar sua influência sobre as economias nacionais. É nesse contexto que precisamos discutir a política externa brasileira. Qual é o lugar do Brasil no mundo? Queremos um país soberano, que dialogue com diferentes nações e fortaleça sua integração latino-americana, ou um país dependente das decisões das grandes potências?

Não podemos ignorar o significado histórico dessas disputas. A proposta da ALCA, defendida pelos Estados Unidos na década de 1990, encontrou resistência de governos latino-americanos, especialmente na reunião de Mar Del Plata, em 2005. A discussão envolvia muito mais do que comércio: estava em jogo o modelo de integração econômica e a autonomia dos países da América Latina.

Hoje, precisamos discutir o fortalecimento do Mercosul, a participação brasileira no BRICS e as relações com organismos financeiros internacionais, como o FMI. Não se trata de fechar as portas para os Estados Unidos ou a Europa, mas de não aceitar que o Brasil tenha de se submeter aos interesses de qualquer potência econômica. Soberania significa ter autonomia para estabelecer relações internacionais em condições de respeito e reciprocidade.

É também nesse cenário que precisamos compreender o que chamo de golpe continuado: o enfraquecimento da confiança nas instituições, a deslegitimação permanente dos resultados eleitorais, a tentativa de desestabilizar governos democraticamente eleitos e a pressão para conquistar, por caminhos que não passam pelo voto, o poder que deveria ser disputado nas urnas.

A história brasileira nos ensina que a luta de classes também se manifesta dentro das próprias classes sociais. Sempre existiram pessoas que, mesmo pertencendo aos setores explorados, assumiram a defesa dos interesses dos exploradores.

Durante a escravidão, por exemplo, havia negros que, em determinadas circunstâncias, recebiam privilégios e funções de controle sobre outros escravizados, inclusive participando da aplicação de castigos. Essa realidade revela como os sistemas de dominação também podem produzir divisões e mecanismos de colaboração entre os próprios oprimidos.

É o que podemos chamar de contradição de classe: quando alguém, mesmo vivendo as dificuldades da classe trabalhadora, passa a defender projetos que favorecem os interesses das elites econômicas, muitas vezes sem perceber as consequências para sua própria condição social.

Outro aspecto que merece reflexão é o papel da mídia na formação da opinião pública. Durante os períodos eleitorais, a corrupção ocupa grande espaço no debate político, muitas vezes deixando em segundo plano, questões fundamentais como desemprego, salários, educação, saúde, concentração de renda, desigualdade social e soberania nacional.

É evidente que a corrupção precisa ser investigada e combatida, independentemente de quem esteja envolvido. Mas será que podemos reduzir todos os problemas do Brasil a essa questão? E por que os interesses econômicos, as desigualdades e as relações de poder recebem tão pouca atenção em determinados debates?

A crise do capitalismo é internacional e seus efeitos atingem países ricos e pobres, embora de maneiras diferentes. O Brasil precisa aprender com sua própria história. Basta olhar para os governos de Fernando Henrique Cardoso e para as políticas econômicas daquele período, com suas privatizações, crises cambiais, desemprego e acordos com o FMI, para discutir os limites e as consequências daquele modelo. Não podemos afirmar que outro governo resolveria todos os problemas, mas precisamos comparar projetos, resultados e escolhas econômicas.

O mais preocupante é perceber que pessoas pobres, trabalhadores e cidadãos que dependem dos serviços públicos podem acabar defendendo propostas políticas que reduzem direitos, enfraquecem políticas sociais e favorecem a concentração de riquezas.

Isso nos remete à alienação política e à falta de consciência crítica. Como diria Paulo Freire, é preciso aprender a fazer a leitura do mundo, compreender a realidade para além das aparências e reconhecer os interesses que estão por trás dos discursos.

Este é o momento de unir a classe trabalhadora em defesa da democracia, dos direitos sociais, da soberania nacional e da distribuição de riquezas. Também é momento de cobrar do governo o cumprimento dos compromissos assumidos durante a campanha eleitoral. Apoiar um projeto político não significa abrir mão da crítica, da fiscalização e da autonomia popular.

A democracia não pode ser defendida apenas quando os resultados eleitorais favorecem nosso lado. Ela precisa ser respeitada sempre, inclusive quando vence quem pensa diferente de nós.

Fica a provocação para o debate:

  • Quem ganha e quem perde com a concentração de riquezas no Brasil?
  • Por que trabalhadores e pessoas pobres, muitas vezes, defendem projetos políticos que podem contrariar seus próprios interesses sociais?
  • A quem interessa um Brasil dependente das grandes potências econômicas?
  • Por que o debate sobre corrupção ocupa tanto espaço, enquanto a desigualdade social e a exploração do trabalho nem sempre recebem a mesma atenção?
  • Estamos construindo consciência de classe ou reproduzindo os discursos das elites?

A luta de classes não desapareceu. Ela está presente nas relações de trabalho, na política, na economia, na comunicação e nas disputas sobre o futuro do país.

Compreender essa realidade é um passo fundamental para transformar a sociedade.

Leonardo Sampaio

Educador e memorialista.

A luta de classes é bíblica!

 Cabe aqui uma reflexão que pode contribuir para o debate e ajudar a compreender melhor o que está por trás de determinadas manifestações políticas.

O que impressiona nessas manifestações é perceber que, no Nordeste brasileiro, também existem pessoas com pensamentos e atitudes nazifascistas, que durante muito tempo permaneceram caladas, escondendo suas verdadeiras convicções. Talvez isso seja herança de uma cultura marcada pelo coronelismo escravocrata, pelo patriarcado, pelo machismo, pela homofobia e pelo pensamento eurocêntrico, americanizado e submisso aos interesses das elites.

É uma mentalidade que se alimenta da mentira programada para iludir pessoas desinformadas ou conquistar a adesão de indivíduos mal-intencionados, que, mesmo sem possuir um centavo no mercado financeiro, defendem e levantam as bandeiras do grande capital. Muitas vezes, vivem mais da aparência do que da própria realidade social em que estão inseridos.

Mas há também outro caminho que alimenta esse pensamento: a ignorância, a falta de conhecimento, a ausência de consciência crítica e, em alguns casos, a própria crueldade humana.

Na perspectiva do Evangelho, aqueles que hoje defendem a concentração de riquezas, a exploração dos pobres e a manutenção dos privilégios estão muito distantes dos ensinamentos de Jesus de Nazaré. São, na prática, traidores de sua mensagem de justiça, solidariedade e partilha.

A Bíblia é muito clara quando denuncia a exploração e a concentração de riquezas. Em Provérbios 13:11, encontramos a advertência: “A riqueza acumulada pela exploração humana ajunta no aumento da desigualdade”.

Em Lucas 18:24-25, Jesus faz uma crítica contundente à riqueza e ao apego aos bens materiais, afirmando que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus.

Leiam também Atos dos Apóstolos 4:32-37. Ali encontramos uma experiência de comunidade em que os primeiros cristãos compartilhavam seus bens, colocavam tudo em comum e procuravam garantir que ninguém passasse necessidade. É uma expressão concreta de solidariedade, igualdade e compromisso coletivo. Uma experiência que nos permite refletir sobre os valores de uma sociedade baseada na partilha, e não na exploração do ser humano pelo ser humano.

Jesus não foi indiferente às desigualdades de seu tempo. Sua mensagem tinha lado: o lado dos pobres, dos humildes, dos excluídos e dos explorados. Maria, sua mãe, também expressou essa consciência de libertação no Magnificat, registrado em Lucas 1:52-53:

“Derrubai dos seus tronos os poderosos e exaltai os humildes. Encham de bens os famintos e despediu os ricos.” Devido a essa posição política humanitária e um Reino de igualdade, justiça e fraternidade, Jesus foi preso, torturado, crucificado e assassinado. Para entender quem são os assassinos de hoje que escolheram Jesus em vez do ladrão Barrabás é a mesma extrema direita global.

Nesse contexto não podemos esquecer que o analfabetismo político está presente em todas as classes sociais. É justamente essa falta de consciência crítica que conduz à alienação e impede muitas pessoas de fazer uma leitura mais profunda da realidade, de compreender o que está por trás dos discursos e de reconhecer os interesses que se escondem por trás das disputas políticas.

Como nos alerta a conhecida reflexão atribuída a Bertolt Brecht: “O pior analfabeto é o analfabeto político”. É aquele que não procura compreender a sociedade em que vive, não questiona as relações de poder, não reconhece as desigualdades e, muitas vezes, não consegue sequer compreender sua própria condição de classe.

Por isso, a luta de classes não é uma invenção de quem luta por justiça social. É uma realidade histórica que também encontra na Bíblia denúncias contra a exploração, a opressão e a concentração de riquezas.

Afinal, de que lado você esta: do lado dos poderosos que acumulam riquezas, oprimem e exploram ou do lado dos humildes que lutam por dignidade, partilha, justiça e igualdade?

Leonardo Sampaio
Educador e memorialista.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

O EXTERMÍNIO DE JOVENS NO PICI - Favela da Fumaça

Leonardo Sampaio

A Fumaça pegou fogo nesse sábado, 05/07/2014. Foram dois assassinatos no início da noite. São jovens se autodestruindo na disputa de território para o domínio do mercado de comercialização das drogas ilícitas. O que antes era boca de fumo de um proprietário passou a ter um nível de organização de jovens, com identificação própria, como: Arretados, Exército de um Homem Só, Paquitos, entre tantos outros, que partiam para a criminalidade. Matar vira herói. Dessa forma, centenas de jovens no Pici foram assassinados entre si ou pela polícia. Esses grupos criminosos começaram a existir em Fortaleza a partir da década de 2000.

A Favela da Fumaça fica no bairro Pici, em Fortaleza, e surgiu por volta de 1958, quando uma família indígena ocupou o Paiol, ou Casamata, da Base Aérea dos americanos (lugar onde eram escondidas as armas de guerra). Já em 1962, o terreno do entorno foi ocupado por famílias negras vindas dos sertões de Iguatu, no Ceará, que trouxeram para esse espaço urbano um pedaço da África, com costumes, cultura, terreiros de umbanda das religiões de matriz africana, saúde popular com as rezadeiras, plantas medicinais, além da cachaça e da cannabis. (O consumo humano da cannabis teve início no terceiro milênio a.C., e seu uso atual é voltado para recreação, medicamento ou como parte de rituais religiosos e espirituais.)

Desde as primeiras instalações residenciais desse povo nesse pedaço de chão chamado Fumaça, passou-se a sofrer repressão do Estado, devido à discriminação às práticas culturais e aos costumes vividos naquela comunidade, fora do padrão eurocêntrico, além da imposição da religião católica. A resistência dos moradores em manter sua cultura e seus costumes fez com que essas pessoas passassem a ser tratadas com violência em todas as dimensões humanas, desde a fome até a dignidade pessoal.

Na década de 1970, como forma de controle para evitar resistência coletiva e organizada, a Ditadura Militar passou a atuar com política assistencialista, por meio do CSU César Cals. Foi também o período em que se iniciaram as lutas de resistência, inspiradas pela fé nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), na década de 1980.

O entorno da Favela da Fumaça era constituído de sítios com criação de vacas leiteiras e pequenos animais para corte, o que facilitava a relação entre o urbano e o rural, principalmente por serem negros e indígenas vindos do interior do estado do Ceará, fugindo da exploração do latifúndio coronelista, que impedia o livre acesso à terra e às manifestações culturais e religiosas africanas e afro-brasileiras. Esse sistema impunha as culturas europeias trazidas ao Brasil pelo colonizador português, como o cristianismo da obediência, da conformação, do silêncio, do pecado, do medo do juízo final, da condenação ao inferno e das punições mais brandas no purgatório, onde as almas vagariam em busca de reza.

Essa lógica era uma forma de a elite dominante, associada ao cristianismo, oferecer uma esperança de mundo melhor na eternidade e, assim, manter os escravizados livres das senzalas, mas sob o domínio das igrejas. Nesse contexto, a conquista da terra da Fumaça já era sinal de libertação, sem amarras de patrão e patroa, podendo ali desenvolver suas manifestações culturais e espirituais a partir dos orixás, que inspiram os deuses da natureza e o bem viver.

Com esse formato, a Fumaça atraiu outras famílias negras vindas dos diversos rincões dos sertões cearenses, tornando aquela localidade uma grande comunidade negra e/ou quilombola, miscigenada com indígenas e brancos, dentro do espaço urbano de Fortaleza, capital do Ceará.

É dessa ancestralidade negra e indígena que vem essa geração de jovens que está sendo exterminada pela violência. São jovens sem consciência crítica e sem objetividade sobre qual sociedade se quer construir: a barbárie da extrema direita ditatorial, que mata; o centrão, que domina pela corrupção em qualquer governo; ou a democracia socialista humanizada, em busca do bem viver.

A Fumaça foi também lugar de arte e cultura popular, fortalecida pelo ESCUTA – Espaço Cultural Frei Tito de Alencar, que simboliza a luta contra a Ditadura Civil-Militar e a tortura que vitimou ainda jovem, Frei Tito, por defender uma sociedade do bem viver, justa, fraterna e com equidade.

Espero que, nas campanhas eleitorais, se discuta a luta de classe e se assumam posições firmes em defesa de uma sociedade do bem viver humano e coletivo, e não do bem-estar que fortalece o capitalismo, o individualismo, o egoísmo e a concentração de renda, geradores de pobreza e miséria na humanidade.

Um texto que se insere na história de Fortaleza nos seus 300 anos.

Leonardo Sampaio é memorialista e educador popular.

Fortaleza 300 anos

 Leonardo Sampaio

 

Fortaleza dos mares azuis, Cidade litorânea composta de: coqueiros, dunas, mangues, encontro dos rios com o mar, indígenas, invasão europeia e novas paisagens com barco-a-vela, pescadores, e desembarque de africano escravizado. Paisagem que se modifica na arquitetura com moradias de Taipo e palha advinda da cultura indígena e africana, e, o estilo europeu com tijolos, telhas e faixadas.

A Cidade que convive com Lagos, Lagoas, Riachos e Açudes de água cristalina, constituída de fauna e flora preservando um verde com capim, fruteiras e caatinga. Paisagens que favoreceram ao êxodo rural, instalar no espaço urbano, Sítios com vacarias e criação de animais de pequeno porte e aves, mantendo os costumes do Sertão, prevalecendo o leite mungido, queijo e manteiga da terra, gerando trabalho e renda na periferia, utilizando a mão-de-obra camponesa migrante para o mundo urbano.

A Cidade eurocêntrica, aonde se encontra o Centro e bairros do entorno, como: Aldeota, Benfica, Jacareacanga e Beira Mar. Espaços de moradia das elites, comércios, hotéis, serviços, escolas, praças e Igrejas.

A Cidade da cultura, da arte, do teatro, do Maracatu, dos Cinemas, dos museus, da literatura, da Padaria Espiritual, Chico da Silva, Dragão do Mar e do Bode Ioiô.

A Cidade das Chácaras de descanso das elites e delirarem as traições com as amantes, muitas vezes tornando espaços dos Bordéis de prostituição elitizada e jogos de azar, enquanto que os trabalhadores deliravam nos Cabarés do Centro, com o romantismo musical do bolero, o samba canção, da gafieira e a boemia.

A Cidade que ao lado da Santa Casa havia um grande prostibulo conhecido como Curral, onde estava pobreza, miséria, amor, prazer e boemia, praia e o centro da cidade no Bairro Moura Brasil. O Curral foi removido para Jurema em Caucaia, para dar lugar a Av. Leste Oeste e o Hotel Marina. Enquanto que as casas de meretrizes, ditos Cabarés foram se instalando pelos bairros periféricos em casas mais discretas.

A Cidade que absorve o impacto das Secas e das Cercas do campo, congregando um contingente populacional com ocupações desordenadas e insalubres, como ambiente de moradia, exigindo novas demandas de políticas públicas, desde a qualificação de mão de obra, geração de trabalho e renda e o saneamento básico, transportes públicos, saúde e educação em uma Cidade sufocada pelo êxodo desumanizado com a formação de Favelas que não oferecem dignidade. Ocupações de terra desordenadas, muitas vezes em lugares alagados impróprios para moradia.

A Cidade que cresce com Conjuntos Habitacionais planejados na periferia e Região Metropolitana distanciando as populações dos espaços “nobres” para favorecer a especulação imobiliária, praticando inclusive remoções de Favelas.

A Cidade das tertúlias, das matinais. Da serenata, do bumba meu boi, do reisado, dos clubes da periferia, do Maracatu, das artes plásticas e da elite com seus clubes exuberantes.

A Cidade periférica longe do mar longe do dragão que produz arte e cultura, estabelecendo a integração cultural, literária no sarau da poesia, do folclore, da capoeira, da biblioteca comunitária, dos espaços culturais coletivos, da educação popular.

A Cidade que aterra lagoas e transforma Riachos em canal de esgotos, acabando a fauna e a flora e polui Rios, Lagoas e Praias.

A Cidade que abandona parte do patrimônio tombado, impedindo o estudo, a pesquisa, a relação com a história e o turismo cultural.

A Cidade das manifestações populares, das associações de moradores, dos sindicatos, das greves, das passeatas, da Jornada de Luta Contra a Fome, acampamentos, protestos e das ocupações de terras, despejos e moradias populares fruto das lutas reivindicatórias promovidas pelos nativos e migrantes que pisam o solo de Fortaleza procurando dias melhores pra o bem viver.

A Cidade do luxo, na Aldeota, Meireles e Orla Marítima, hotéis, restaurantes e Clube Náutico, do turismo com Mercado Central, Feira de artesanato da Beira Mar, do Mercado do peixe e Volta da Jurema e Calçadão da Beira Mar.

Parabéns pelos 300 anos de Fortaleza.  

 

 

FORTALEZA

 

Fortaleza 300 anos

Há muito tempo tô aqui

Onde tracei os meus planos

Deixando o meu Cariri.

 

Fortaleza das jangadas

de praias e pescadores,

com as dunas ocupadas

pelos especuladores.

 

O afroindígena expulso

com a sua arquitetura

o arranha céu deu impulso,

a uma nova estrutura.

 

Arranha Céu e mansão

ao lado grandes favelas

sofrendo a repressão

com resistência e mazelas.

 

Leonardo Sampaio

Educador e memorialista

13/04/2026.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Carnaval na Escola e a Lei 10639/2003

A Escola Bergson Gurjão Farias, deve desenvolver em fevereiro, a temática sobre carnaval a partir da Lei 10.639/2003, “que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino, a obrigatoriedade da temática história e cultura africana e afrobrasileira". O carnaval tem raiz na cultura afrobrasileira, o que deve ser estudado enquanto espaço de consciência negra, desmistificando o preconceito e a intolerância que o carnavalesco sofre no país, devido à relação da batida dos tambores com o Candomblé, religião de matriz africana, de onde nascem os ritmos da cultura popular brasileira nas comunidades negras. A Escola tem o papel de mostrar as belezas africanas e afrobrasileira que se manifestam nas comunidades negras e quilombolas com seu colorido, culinária e literatura no pós-libertação dos escravizados. A cultura afro no Brasil mistura-se com a indígena e europeia, o que vem enriquecer a criatividade na culinária, arte, música, dança, esporte e literatura passando a ser denominada de cultura popular brasileira. A história do carnaval no Brasil iniciou-se no período colonial. Uma das primeiras manifestações carnavalescas foi o entrudo, uma festa de origem portuguesa que na colônia era praticada pelos escravos. Depois surgiram os cordões e ranchos, as festas de salão, os corsos e as escolas de samba. brasilescola.uol.com.br/carnaval/historia-do-carnaval.htm O carnaval brasileiro é uma festa multicultural que se populariza com o samba, tem influência da religião africana e afrobrasileira, de onde vem à batida dos tambores e a dança que expressa o sentido espiritual do corpo, o corpo que fala expressando o ritmo da música afro com sua diversidade desde o samba, axé, frevo, reggae, rapper, hip hop, maracatu, maxixe, forró, xaxado, Carimbó, coco e capoeira. É toda uma musicalidade que se transforma em Festas Populares onde está à expressão corporal, a alegria, o aconchego, a coletividade e faz com que ninguém aguente ouvir sem se mexer, porque o corpo pede e a mente libera. O Carnaval de Rua no Brasil se tornou a maior manifestação popular da cultura afrobrasileira, que se transforma em festa como podemos ver: no Rio de Janeiro inicialmente veio os cordões em ritmo de machinhas com composição de Chiquinha Gonzaga em 1899, posteriormente, das Rodas de samba nas comunidades negras, vem à criação das Escolas de Samba Enredo, que se popularizou no Rio de Janeiro e São Paulo, espalhando-se por outras localidades do país. Já na Bahia tem o Samba Reggae e o Axé, em Pernambuco o Maracatu rural, o Maracatu Bague Virado e o Frevo, no Maranhão o Bumba meu boi e o Reggae, no Amazonas o Bumba meu boi de Parintins, no Pará o Carimbó, no Ceará o Maracatu Cearense. Os desfiles de Rua do Carnaval em Fortaleza simbolizam esse encontro de ritmos carnavalesco de todo o país, mais o humor e a sátira. É esse carnaval afro-brasileiro que trazemos como forma de refletir a beleza e a criatividade da cultura negra, vinda da África para o Brasil, pelos escravizados/as. Carnaval é negritude é história afro é Terreiro é tambores é poesia é samba, axé, frevo, Bumba-meu-boi e maracatu é puro afro-brasileiro. Leonardo Sampaio. Leonardo Sampaio, lotado na Escola Bergson Gurjão Farias, no apoio pedagógico da gestão escolar. É estudioso e pesquisador da cultura popular brasileira.

Carnaval na Escola como cultura afro-brasileira.

Carnaval na Escola Bergson Gurjão Farias Biblioteca Bem-Me-Quer Por: Leonardo Sampaio “A dança e o corpo formam um ambiente sagrado de espiritualidade.” Esse momento de carnaval na Escola Bergson Gurjão Farias é muito mais que uma simples dança, é na verdade o encontro com a cultura africana e afrobrasileira, com a beleza da negritude, da arte e da batida dos tambores trazida pelos escravizados chegados ao Brasil, forçados, mas trazendo no espírito a ancestralidade, que revitalizou a vida, por meio da resistência diante das perseguições, da Igreja e do Estado, governado pelos brancos europeus dos Impérios. Os mesmos herdeiros da “Casa Grande” que hoje dão golpes e assumem o governo para mascarar a corrupção implantada por eles e buscam desesperadamente barrar as investigações da Lava-Jato na parte que os atinge. Tornando um judiciário seletivo e desmoralizado, um governo de corruptos e um congresso de bandidos. Para a Biblioteca Bem-me-quer, que estimulou a pesquisa e o estudo sobre o Carnaval brasileiro, junto às crianças, foi muito estimulante ter levado a se envolverem escrevendo, aprenderam a buscar na internet, leram, viram vídeos e ouviram músicas de Carnaval, que revelaram a cultura africana e afrobrasileira, músicas e ritmos que contaminam a alma, a mente e o coração alegre desse povo que povoa esse país chamado Brasil. Um povo que mesmo diante de todo o sofrimento consegue mostrar o talento vindo dos ancestrais e em seus quintais, seus terreiros, suas comunidades negras e quilombolas subindo os morros desenvolvem seus saberes e confessam sua espiritualidade de fé nos Orixás, inspirados na natureza e no Deus maior Olorum. É esse o Carnaval que trazemos na Escola, como lugar de desmistificar a intolerância religiosa, racismo religioso, o preconceito, combater o racismo e elevar a autoestima dos negros e das negras para que se sintam livres em assumir sua identidade negra e sentir felicidade e orgulho da sua negritude. Esse Carnaval simboliza também a percepção da Escola, que racismo não é bullying, é crime e essa é a razão pela qual se faz necessário implementar a Lei 10639/2003 que modifica a LDB, instituindo a obrigatoriedade do Ensino de História e da cultura africana e afrobrasileira em escolas públicas e particulares. Portanto agradecemos a todos e a todas à Diretora Sheila, as Coordenadoras pedagógicas Maria, Laelza, às professoras e aos alunos e alunas que vão aqui fazer a culminância de seus estudos e pesquisas sobre a diversidade de gêneros de ritmos e danças trazendo o Frevo, o Samba, o Maracatu, o Samba-Reggae, o Axé, Bumba-meu-boi e as Marchinhas. Carnaval é negritude é história afro é Terreiro é tambores é poesia é samba, axé, frevo e maracatu é puro afro-brasileiro.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

E-book: Performance Poética na Escola






Descrição:

"Performance Poética na Escola" é uma obra envolvente que combina arte, educação e cidadania. Escrito por Leonardo Sampaio, professor, pedagogo e poeta, o livro é uma rica coletânea de poemas, cordéis, trovas e quadras que abordam temas essenciais para o contexto escolar, como inclusão, ancestralidade, direitos humanos e a valorização da cultura popular.

Ao longo de suas 196 páginas, o autor compartilha sua experiência de mais de uma década no magistério, utilizando a poesia como ferramenta pedagógica para inspirar alunos, promover o interesse pela leitura e estimular debates sobre questões sociais e culturais.

O livro se destaca por sua abordagem acessível e criativa, ideal para professores que buscam inovar em sala de aula, educadores populares, e amantes da literatura brasileira. Com textos que vão da emoção ao humor, da crítica social à celebração das raízes culturais, Performance Poética na Escola é um convite para transformar o aprendizado em uma verdadeira experiência artística.

Destaques da Obra:

  • Poemas e cordéis que estimulam a leitura e o pensamento crítico.
  • Reflexões sobre inclusão, racismo, ancestralidade e cidadania.
  • Um guia para educadores que desejam integrar cultura e ensino.
  • Ilustrações feitas por crianças, que enriquecem a obra com um toque autêntico e criativo.

Para quem é este livro?
Educadores, estudantes, arte-educadores, pais, e todos que acreditam no poder da arte e da cultura para transformar a sociedade.

Adquira agora e leve a poesia para além das páginas, criando um impacto positivo em sua escola e comunidade!

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Perfil do eleitor reacionário

 Leonardo Sampaio

 

Os princípios e valores,

ditos humanitários,

criados no cristianismo,

virou coisas de otários,

deixou de ser pregados,

nos votos são revelados,

direitos são secundários.

 

Um candidato maquiado,

passa a ser suficiente

Fortaleza é exemplo,

vota-se num delinquente

que nega todos valores

e pratica os horrores,

um sujeito inconsequente.

 

O perfil do eleitor/ra

parece ser engraçado/a

tem o rico milionário

e até desempregado/a,

que se acha produtor/ra,

ou mesmo um condutor/ra

que não é mais empregado/a.

 

Não é mais trabalhador/a,

não depende de patrão,

agora é empresário/a,

se acha bicho/a papão

sonha muito em ser rico,

mas vive sempre de bico

na nova escravidão.

 

Não tem direito a nada

que o Estado oferece,

pra ter uma vida digna,

a família quem padece

se houver um acidente,

fica como indigente

ou o Plano aparece.

 

Ele/a vira uma coisa,

e produto do mercado

sendo mais um objeto

que é pra ser explorado,

mas se acha independente,

pensa até que é gente

igual ao empresariado.

 

Quer ter toda regalia

sonha em ser milionário,

pro seu voto ter valor

vivendo sem ter salário

buscando prosperidade

sem viver de piedade

pra ser igual empresário.

 

Ao ser empreendedor/a,

e agir como patrão

esquecer a sua origem

e ter a bíblia na mão,

passa a ter sua verdade

na individualidade,

se dizendo ser cristão.

 

O Templo é uma farsa,

não existe cristianismo,

igual Jesus de Nazaré,

pois só o capitalismo

com o individualismo

e o ante comunismo

passa a ser catecismo.

 

A doutrina do domínio

com tomada do poder

é a nova teologia

e o eleitor sem saber

da partilha de Jesus

nem porque morreu na cruz,

mas no mito ele/a crer.

 

Não aceita democracia,

e prega a ditadura

isso é bolsonarismo,

até quebra viatura

mentira os alimenta

cria coisa e inventa,

é assim sua postura.

domingo, 22 de dezembro de 2024

Qual é o seu grito?

Leonardo Sampaio 


O Grito dos Excluídos

é a manifestação,

de quem sente-se explorado/a

e busca libertação,

procurando um lugar

que possa se libertar

de toda exploração.

 

Capital acumulado

exclui uma maioria,

tira de muitos a vida

acaba a soberania,

expõe a desigualdade

impede a liberdade,

dar poder a tirania.

 

Você tem sede de que?

De riqueza ou igualdade?

De justiça ou do ódio?

Da fome ou liberdade?

Acumular? Dividir?

O que lhe faz existir?

A vida ou crueldade?

 

Ter vida em abundância,

é preciso perceber

de que lado eu estou,

às perguntas responder

da vida? ou opressor?

Sendo eu trabalhador

o que preciso fazer?

 

No Grito dos Excluídos,

Vida em primeiro lugar,

você tem fome e sede.

Que lado você estar?

Sua sede qual é mesmo?

Será de ficar a esmo?

Ou é de se libertar?

 

Grito gritado com fome.

Grito do injustiçado,

e grito da violência,

com grito do explorado

o grito por liberdade

e grito da igualdade

grito do indignado.

 

Cada qual tem o seu grito,

aquele grito gritado,

grito pedindo socorro,

é um grito engasgado,

grito do feminicídio

é um grito feticídio

e um grito odiado.

 

Diga mais qual é seu grito.