segunda-feira, 13 de abril de 2026

O EXTERMÍNIO DE JOVENS NO PICI - Favela da Fumaça

Leonardo Sampaio

A Fumaça pegou fogo nesse sábado, 05/07/2014. Foram dois assassinatos no início da noite. São jovens se autodestruindo na disputa de território para o domínio do mercado de comercialização das drogas ilícitas. O que antes era boca de fumo de um proprietário passou a ter um nível de organização de jovens, com identificação própria, como: Arretados, Exército de um Homem Só, Paquitos, entre tantos outros, que partiam para a criminalidade. Matar vira herói. Dessa forma, centenas de jovens no Pici foram assassinados entre si ou pela polícia. Esses grupos criminosos começaram a existir em Fortaleza a partir da década de 2000.

A Favela da Fumaça fica no bairro Pici, em Fortaleza, e surgiu por volta de 1958, quando uma família indígena ocupou o Paiol, ou Casamata, da Base Aérea dos americanos (lugar onde eram escondidas as armas de guerra). Já em 1962, o terreno do entorno foi ocupado por famílias negras vindas dos sertões de Iguatu, no Ceará, que trouxeram para esse espaço urbano um pedaço da África, com costumes, cultura, terreiros de umbanda das religiões de matriz africana, saúde popular com as rezadeiras, plantas medicinais, além da cachaça e da cannabis. (O consumo humano da cannabis teve início no terceiro milênio a.C., e seu uso atual é voltado para recreação, medicamento ou como parte de rituais religiosos e espirituais.)

Desde as primeiras instalações residenciais desse povo nesse pedaço de chão chamado Fumaça, passou-se a sofrer repressão do Estado, devido à discriminação às práticas culturais e aos costumes vividos naquela comunidade, fora do padrão eurocêntrico, além da imposição da religião católica. A resistência dos moradores em manter sua cultura e seus costumes fez com que essas pessoas passassem a ser tratadas com violência em todas as dimensões humanas, desde a fome até a dignidade pessoal.

Na década de 1970, como forma de controle para evitar resistência coletiva e organizada, a Ditadura Militar passou a atuar com política assistencialista, por meio do CSU César Cals. Foi também o período em que se iniciaram as lutas de resistência, inspiradas pela fé nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), na década de 1980.

O entorno da Favela da Fumaça era constituído de sítios com criação de vacas leiteiras e pequenos animais para corte, o que facilitava a relação entre o urbano e o rural, principalmente por serem negros e indígenas vindos do interior do estado do Ceará, fugindo da exploração do latifúndio coronelista, que impedia o livre acesso à terra e às manifestações culturais e religiosas africanas e afro-brasileiras. Esse sistema impunha as culturas europeias trazidas ao Brasil pelo colonizador português, como o cristianismo da obediência, da conformação, do silêncio, do pecado, do medo do juízo final, da condenação ao inferno e das punições mais brandas no purgatório, onde as almas vagariam em busca de reza.

Essa lógica era uma forma de a elite dominante, associada ao cristianismo, oferecer uma esperança de mundo melhor na eternidade e, assim, manter os escravizados livres das senzalas, mas sob o domínio das igrejas. Nesse contexto, a conquista da terra da Fumaça já era sinal de libertação, sem amarras de patrão e patroa, podendo ali desenvolver suas manifestações culturais e espirituais a partir dos orixás, que inspiram os deuses da natureza e o bem viver.

Com esse formato, a Fumaça atraiu outras famílias negras vindas dos diversos rincões dos sertões cearenses, tornando aquela localidade uma grande comunidade negra e/ou quilombola, miscigenada com indígenas e brancos, dentro do espaço urbano de Fortaleza, capital do Ceará.

É dessa ancestralidade negra e indígena que vem essa geração de jovens que está sendo exterminada pela violência. São jovens sem consciência crítica e sem objetividade sobre qual sociedade se quer construir: a barbárie da extrema direita ditatorial, que mata; o centrão, que domina pela corrupção em qualquer governo; ou a democracia socialista humanizada, em busca do bem viver.

A Fumaça foi também lugar de arte e cultura popular, fortalecida pelo ESCUTA – Espaço Cultural Frei Tito de Alencar, que simboliza a luta contra a Ditadura Civil-Militar e a tortura que vitimou ainda jovem, Frei Tito, por defender uma sociedade do bem viver, justa, fraterna e com equidade.

Espero que, nas campanhas eleitorais, se discuta a luta de classe e se assumam posições firmes em defesa de uma sociedade do bem viver humano e coletivo, e não do bem-estar que fortalece o capitalismo, o individualismo, o egoísmo e a concentração de renda, geradores de pobreza e miséria na humanidade.

Um texto que se insere na história de Fortaleza nos seus 300 anos.

Leonardo Sampaio é memorialista e educador popular.

Nenhum comentário: