domingo, 1 de novembro de 2026

A LUTA DE CLASSES SE AFLORA NO BRASIL

 A questão central da conjuntura política brasileira é a luta de classes. Precisamos compreender que, por trás das disputas partidárias, dos discursos moralistas e das manifestações políticas, existe um confronto histórico entre projetos de sociedade, interesses econômicos e diferentes concepções de desenvolvimento para o Brasil.

De um lado, temos uma herança conservadora, colonialista e escravocrata, que insiste em preservar privilégios e concentrar riquezas. De outro, temos os movimentos populares, os trabalhadores do campo e da cidade e os setores que lutam por democracia, soberania nacional, distribuição de renda e justiça social.

O capitalismo neoliberal, quando subordinado aos interesses dos grandes grupos econômicos e financeiros internacionais, procura ampliar sua influência sobre as economias nacionais. É nesse contexto que precisamos discutir a política externa brasileira. Qual é o lugar do Brasil no mundo? Queremos um país soberano, que dialogue com diferentes nações e fortaleça sua integração latino-americana, ou um país dependente das decisões das grandes potências?

Não podemos ignorar o significado histórico dessas disputas. A proposta da ALCA, defendida pelos Estados Unidos na década de 1990, encontrou resistência de governos latino-americanos, especialmente na reunião de Mar Del Plata, em 2005. A discussão envolvia muito mais do que comércio: estava em jogo o modelo de integração econômica e a autonomia dos países da América Latina.

Hoje, precisamos discutir o fortalecimento do Mercosul, a participação brasileira no BRICS e as relações com organismos financeiros internacionais, como o FMI. Não se trata de fechar as portas para os Estados Unidos ou a Europa, mas de não aceitar que o Brasil tenha de se submeter aos interesses de qualquer potência econômica. Soberania significa ter autonomia para estabelecer relações internacionais em condições de respeito e reciprocidade.

É também nesse cenário que precisamos compreender o que chamo de golpe continuado: o enfraquecimento da confiança nas instituições, a deslegitimação permanente dos resultados eleitorais, a tentativa de desestabilizar governos democraticamente eleitos e a pressão para conquistar, por caminhos que não passam pelo voto, o poder que deveria ser disputado nas urnas.

A história brasileira nos ensina que a luta de classes também se manifesta dentro das próprias classes sociais. Sempre existiram pessoas que, mesmo pertencendo aos setores explorados, assumiram a defesa dos interesses dos exploradores.

Durante a escravidão, por exemplo, havia negros que, em determinadas circunstâncias, recebiam privilégios e funções de controle sobre outros escravizados, inclusive participando da aplicação de castigos. Essa realidade revela como os sistemas de dominação também podem produzir divisões e mecanismos de colaboração entre os próprios oprimidos.

É o que podemos chamar de contradição de classe: quando alguém, mesmo vivendo as dificuldades da classe trabalhadora, passa a defender projetos que favorecem os interesses das elites econômicas, muitas vezes sem perceber as consequências para sua própria condição social.

Outro aspecto que merece reflexão é o papel da mídia na formação da opinião pública. Durante os períodos eleitorais, a corrupção ocupa grande espaço no debate político, muitas vezes deixando em segundo plano, questões fundamentais como desemprego, salários, educação, saúde, concentração de renda, desigualdade social e soberania nacional.

É evidente que a corrupção precisa ser investigada e combatida, independentemente de quem esteja envolvido. Mas será que podemos reduzir todos os problemas do Brasil a essa questão? E por que os interesses econômicos, as desigualdades e as relações de poder recebem tão pouca atenção em determinados debates?

A crise do capitalismo é internacional e seus efeitos atingem países ricos e pobres, embora de maneiras diferentes. O Brasil precisa aprender com sua própria história. Basta olhar para os governos de Fernando Henrique Cardoso e para as políticas econômicas daquele período, com suas privatizações, crises cambiais, desemprego e acordos com o FMI, para discutir os limites e as consequências daquele modelo. Não podemos afirmar que outro governo resolveria todos os problemas, mas precisamos comparar projetos, resultados e escolhas econômicas.

O mais preocupante é perceber que pessoas pobres, trabalhadores e cidadãos que dependem dos serviços públicos podem acabar defendendo propostas políticas que reduzem direitos, enfraquecem políticas sociais e favorecem a concentração de riquezas.

Isso nos remete à alienação política e à falta de consciência crítica. Como diria Paulo Freire, é preciso aprender a fazer a leitura do mundo, compreender a realidade para além das aparências e reconhecer os interesses que estão por trás dos discursos.

Este é o momento de unir a classe trabalhadora em defesa da democracia, dos direitos sociais, da soberania nacional e da distribuição de riquezas. Também é momento de cobrar do governo o cumprimento dos compromissos assumidos durante a campanha eleitoral. Apoiar um projeto político não significa abrir mão da crítica, da fiscalização e da autonomia popular.

A democracia não pode ser defendida apenas quando os resultados eleitorais favorecem nosso lado. Ela precisa ser respeitada sempre, inclusive quando vence quem pensa diferente de nós.

Fica a provocação para o debate:

  • Quem ganha e quem perde com a concentração de riquezas no Brasil?
  • Por que trabalhadores e pessoas pobres, muitas vezes, defendem projetos políticos que podem contrariar seus próprios interesses sociais?
  • A quem interessa um Brasil dependente das grandes potências econômicas?
  • Por que o debate sobre corrupção ocupa tanto espaço, enquanto a desigualdade social e a exploração do trabalho nem sempre recebem a mesma atenção?
  • Estamos construindo consciência de classe ou reproduzindo os discursos das elites?

A luta de classes não desapareceu. Ela está presente nas relações de trabalho, na política, na economia, na comunicação e nas disputas sobre o futuro do país.

Compreender essa realidade é um passo fundamental para transformar a sociedade.

Leonardo Sampaio

Educador e memorialista.

Nenhum comentário: