Leonardo Sampaio
A Fumaça pegou fogo nesse sábado, 05/07/2014.
Foram dois assassinatos no início da noite. São jovens se autodestruindo na
disputa de território para o domínio do mercado de comercialização das drogas
ilícitas. O que antes era boca de fumo de um proprietário passou a ter um nível
de organização de jovens, com identificação própria, como: Arretados, Exército
de um Homem Só, Paquitos, entre tantos outros, que partiam para a
criminalidade. Matar vira herói. Dessa forma, centenas de jovens no Pici foram
assassinados entre si ou pela polícia. Esses grupos criminosos começaram a
existir em Fortaleza a partir da década de 2000.
A Favela da Fumaça fica no bairro Pici, em
Fortaleza, e surgiu por volta de 1958, quando uma família indígena ocupou o
Paiol, ou Casamata, da Base Aérea dos americanos (lugar onde eram escondidas as
armas de guerra). Já em 1962, o terreno do entorno foi ocupado por famílias
negras vindas dos sertões de Iguatu, no Ceará, que trouxeram para esse espaço
urbano um pedaço da África, com costumes, cultura, terreiros de umbanda das
religiões de matriz africana, saúde popular com as rezadeiras, plantas
medicinais, além da cachaça e da cannabis. (O consumo humano da cannabis teve
início no terceiro milênio a.C., e seu uso atual é voltado para recreação,
medicamento ou como parte de rituais religiosos e espirituais.)
Desde as primeiras instalações residenciais
desse povo nesse pedaço de chão chamado Fumaça, passou-se a sofrer repressão do
Estado, devido à discriminação às práticas culturais e aos costumes vividos
naquela comunidade, fora do padrão eurocêntrico, além da imposição da religião
católica. A resistência dos moradores em manter sua cultura e seus costumes fez
com que essas pessoas passassem a ser tratadas com violência em todas as
dimensões humanas, desde a fome até a dignidade pessoal.
Na década de 1970, como forma de controle para
evitar resistência coletiva e organizada, a Ditadura Militar passou a atuar com
política assistencialista, por meio do CSU César Cals. Foi também o período em
que se iniciaram as lutas de resistência, inspiradas pela fé nas Comunidades
Eclesiais de Base (CEBs), na década de 1980.
O entorno da Favela da Fumaça era constituído
de sítios com criação de vacas leiteiras e pequenos animais para corte, o que
facilitava a relação entre o urbano e o rural, principalmente por serem negros
e indígenas vindos do interior do estado do Ceará, fugindo da exploração do
latifúndio coronelista, que impedia o livre acesso à terra e às manifestações
culturais e religiosas africanas e afro-brasileiras. Esse sistema impunha as
culturas europeias trazidas ao Brasil pelo colonizador português, como o
cristianismo da obediência, da conformação, do silêncio, do pecado, do medo do
juízo final, da condenação ao inferno e das punições mais brandas no
purgatório, onde as almas vagariam em busca de reza.
Essa lógica era uma forma de a elite
dominante, associada ao cristianismo, oferecer uma esperança de mundo melhor na
eternidade e, assim, manter os escravizados livres das senzalas, mas sob o
domínio das igrejas. Nesse contexto, a conquista da terra da Fumaça já era
sinal de libertação, sem amarras de patrão e patroa, podendo ali desenvolver
suas manifestações culturais e espirituais a partir dos orixás, que inspiram os
deuses da natureza e o bem viver.
Com esse formato, a Fumaça atraiu outras
famílias negras vindas dos diversos rincões dos sertões cearenses, tornando
aquela localidade uma grande comunidade negra e/ou quilombola, miscigenada com
indígenas e brancos, dentro do espaço urbano de Fortaleza, capital do Ceará.
É dessa ancestralidade negra e indígena que
vem essa geração de jovens que está sendo exterminada pela violência. São
jovens sem consciência crítica e sem objetividade sobre qual sociedade se quer
construir: a barbárie da extrema direita ditatorial, que mata; o centrão, que
domina pela corrupção em qualquer governo; ou a democracia socialista
humanizada, em busca do bem viver.
A Fumaça foi também lugar de arte e cultura
popular, fortalecida pelo ESCUTA – Espaço Cultural Frei Tito de Alencar, que
simboliza a luta contra a Ditadura Civil-Militar e a tortura que vitimou ainda
jovem, Frei Tito, por defender uma sociedade do bem viver, justa, fraterna e
com equidade.
Espero que, nas campanhas eleitorais, se
discuta a luta de classe e se assumam posições firmes em defesa de uma
sociedade do bem viver humano e coletivo, e não do bem-estar que fortalece o
capitalismo, o individualismo, o egoísmo e a concentração de renda, geradores
de pobreza e miséria na humanidade.
Um texto que se insere na história de
Fortaleza nos seus 300 anos.
Leonardo
Sampaio é memorialista e educador popular.