terça-feira, 27 de abril de 2010

Intersetorialidade na gestão pública


Leonardo Sampaio

A intersetorialidade é uma forma moderna de exercer a gestão pública, tendo como objetivo o olhar para as ações no todo do governo. Dessa forma pode-se identificar que é impossível um ponto crítico de lixo, por exemplo, ser visto apenas como uma questão de infraestrutura, já que o ambiente onde ele se localiza relaciona-se com as políticas públicas em diversos setores da administração, como: educação ambiental, geração de renda, saúde publica, limpeza, educação escolar, formação cultural, bem como os próprios geradores do lixo, identificados no comércio, indústria, residências, hospitais e repartições públicas. Intersetorialidade é, no entanto, o esforço de estabelecer um processo de política intersetorial que tem, necessariamente, de lidar com a tensão decorrente do modo pelo qual os atores de diferentes setores, com diferentes visões sobre um mesmo problema, se relacionam.

Na política de intersetorialidade os gestores passam a ter uma visão sistêmica de como a máquina administrativa do governo esta funcionando, para poder dar resposta a sociedade da maneira como ela cobra e entende o governo. Para a sociedade o governo não pode ser uma coisa particularizada, nem departamentalizada do ponto de vista das práticas e das ações governamentais. Essa é a razão pela qual o governo necessariamente precisa trabalhar a interdisciplinaridade, para alcançar a intersetorialidade e otimizar a gestão com ações conjuntas e contínuas entre os órgãos.

Neste sentido, o Gestor precisa anular a dicotomia interdisciplinar de gerenciamento de órgãos de forma particularizada, partidária e fechada a interesses individuais, já que a forma moderna de gestão pública obrigatoriamente necessita de visão sistêmica do funcionamento da máquina administrativa, para que ela se relacione com as necessidades do município e ofereça qualidade nos serviços e melhoria de vida à população como detentora dos direitos constitucionais e repassadora dos impostos que sustentam todos os serviços públicos. Portanto, as ações governamentais devem sempre buscar a excelência, exercitando suas práticas de intersetorialidade e catalogando resultados realizados com o fazer conjunto em cada Secretaria, órgãos e autarquias, como complementação desenvolvida de forma compartilhada e execução coletiva. “Os diferentes setores de governo e sociedade têm metas e interesses específicos e atuam em função de realizá-los. No entanto, alguns objetivos públicos transcendem os campos de atuação especializados e exigem ações integradas” – (Luciene Burlandy).

Esse modelo de gestão tem mostrado que é o caminho mais viável e seguro de fazer política pública com responsabilidade e eficácia, pois permite construir redes intersetoriais, se articulando com o conjunto de organizações governamentais estaduais e federais, não governamentais formais e informais, para assegurar atendimento integral às necessidades dos diversos segmentos da sociedade, além de facilitar às pessoas acompanhar a gestão participativa com seu olhar crítico, às vezes de satisfação em ter acertado na escolha, outras vezes com sentimentos da incompletude no olhar do todo, devido à ausência de informações ou conhecimentos.

Leonardo Sampaio é pedagogo e assessor em políticas públicas.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Etnias e outra economia

JORNAL O POVO
Artigo
Leonardo Sampaio
19 Fev 2010
“Economia e vida” é o tema da Campanha da Fraternidade que busca “colaborar na promoção de uma economia a serviço da vida, com consciência ambiental, sustentabilidade, dignidade da pessoa e o respeito aos direitos humanos”, segundo o Texto Base.
A economia vista como ciência, deve ser integralmente voltada para o bem comum, onde o Ser seja o centro e que Ele próprio domine a economia e não a economia o domine por meio do mercado, com o único objetivo que é o lucro, considerado também o deus adorável do capitalismo.
Vendo a economia pelo prisma da solidariedade, nas comunidades onde vivem os povos de etnias, é visível perceber a exclusão destes do mercado de trabalho e consumo na forma capitalista. Porém, é importante compreender que nestas comunidades formadas por etnias, a economia é dirigida para a satisfação das necessidades humanas sem ganância nem egoísmo. Lá é onde se pratica a partilha do que se tem, de forma solidaria. São pessoas de fé, que seguem à risca “a vida dos primeiros cristãos” (Atos 14), de seus orixás, da Mãe Terra e o pai Tupã, ou seja, todos são iguais nos olhares de suas espiritualidades. Faltando-lhes apenas as oportunidades que não lhes foram dadas desde a saída das senzalas e ocas.
Precisa-se ter muito cuidado ao abordá-los com projetos achando que o povo humilde tem que se adaptar ao mercado capitalista de produção e consumo, o que tem feito muitos técnicos, ONGs e governos nestas comunidades. São projetos que quase sempre não tem dado certo e os protagonistas saem culpando o povo de incompetente, onde a incompetência é de quem impôs um modelo econômico incompatível com a cultura local. As pessoas ali querem apenas o lugar para morar, trabalhar e viver com dignidade, utilizando apenas aquilo que a terra lhes oferece para viver.
O que é necessário fazer é ajudá-los a aperfeiçoar as tecnologias para melhorar a produção e agregar valores aos produtos a partir das matérias primas existentes nestas comunidades como é o caso de Caucaia, que dispõem de um potencial enorme de coisas possíveis de gerar trabalho e renda nas comunidades quilombolas, utilizando a própria natureza das Serras com vegetação verde que pode ser transformado em área de turismo comunitário, cultural e ecológico criando trilhas na floresta. Essa ação pode desenvolver uma cadeia produtiva sustentável desde a formação e capacitação de guias turísticos com crianças e jovens da própria comunidade, assim como motivar a produção de artesanato da palha de banana, da carnaúba e sementes construindo mercadorias utilitárias de fácil comercialização. A diversidade de frutas produzidas nestas comunidades é também uma coisa extraordinária, se lá mesmo é feito o beneficiamento, já podem vender diretamente para o mercado, livrando-se do atravessador que é quem mais ganha com a produção. Até mesmo o animal pode ser fonte de renda para passeios pelas estradas e Serras, o que é feito hoje nas praias de forma inadequada. Outra fonte que deve ser estimulada é resgatar a cultura que está adormecida e precisa ser revitalizada compreendendo que a arte é saúde e qualidade de vida em todos os recantos da humanidade. Por meio da arte e da cultura se trabalha o artesanato, a musicalidade a dança afro-brasileira e indígena. Nessa cadeia produtiva pode-se criar ainda, centros de alimentação da culinária afro e indígena de produtos da terra, incentivando inclusive a produção agrícola voltada para o abastecimento local.
São investimentos econômicos com expressões culturais possíveis de serem feitos a curto, médio e longo prazo. São investimentos que iram mostrar as belezas das Serras e do Sertão mudando radicalmente a qualidade de vida das pessoas destas comunidades e ainda criando divisas de raízes culturais de Caucaia com o mundo.
É fundamental para Caucaia avançar em políticas culturais de raiz e o Governo do Dr. Washington tem demonstrado sensibilidade neste sentido quando na Secretaria de Assistência Social é formado o Setor da Igualdade Racial, seguindo o Governo Lula que criou o Ministério da Igualdade Racial e na Secretaria de Articulação Política foi criado os Territórios Indígenas e Quilombola com a contração de três Agentes Territoriais destas etnias.
As etnias são formadas por pessoas simples, que mesmo tendo suas culturas próprias, são bombardeadas por outras culturas que nunca iram se adequar ao mundo delas. Por isso a razão de iniciar um processo de construção de políticas públicas sustentáveis na área da geração de trabalho e renda a partir de uma visão comunitária e as práticas da economia popular e solidária formando e capacitando pessoas no viés da produção coletiva e familiar.
O papel do Estado e dos Municípios nestes investimentos é apenas favorecer a estas comunidades, tecnologias adequadas para a vida no semi-árido a partir de suas raízes culturais locais com capacidade de atrair um turismo diferenciado, que gosta das artes, das trilhas ecológicas e gastronomia natural sem produtos agrotóxicos.
Que a Campanha da Fraternidade nesse ano de 2010, possibilite novos conceitos de economia que nasçam nos projetos, trazendo a discussão: Etnias com outra economia é possível.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Particularidades étnicas em Caucaia

Caucaia tem uma particularidade no que se refere a etnias, tendo em vista os povos indígenas, negros e ciganos que formam uma miscigenação de raças que se diluem nos territórios entre descendências européias e o próprio europeu nas áreas turísticas.
No contato com as pessoas percebe-se que as culturas, a religiosidade e os costumes destes povos permanecem enraizados na alma negra e indígena por meio do sangue ancestral derramado nas senzalas e tribos ao longo dos tempos. Como prova basta saborear o tempero da gastronomia saída das cozinhas das mães preta e pais João, capoeira, maracatus, cantigas de rodas, artesanato, a produção agrícola e os terreiros.
O ambiente em que vivem no município revela o apartheid existente desde os séculos passados. As relações trazem o preconceito e a discriminação, o que os faz negarem sua raça, na tentativa de tornarem-se iguais. No entanto permanecem nas serras, sertões, cercados e favelas inibidos culturalmente de cultuar sua arte e a própria espiritualidade de suas origens africanas com os seus orixás. Assim como acontece com os povos indígenas que tiveram de negar a mãe terra com sua beleza natural e o pai tupã. Enquanto os brancos trazem a imagem de um só Deus e os obriga a adorar em nome da salvação eterna. Apresentam um homem bonito, elegante, que veio lá do céu, por entre as belezas das nuvens carregadas de água e vida. A mãe é uma mulher branca bonita, mística, simples, capaz de fazer-se presente em todas as culturas do universo, simbolizado por um pai onipotente, poderoso, rígido, porém amoroso aos que lhe seguem.
Desde a colonização quando os negros foram trazidos da África como mão-de-obra escrava para o Brasil, que seus valores, cultura, religião, suas heranças africanas foram 'arrancados'. A orientação oficial da igreja que justificava a escravidão naquela época era de que os negros não tinham alma e nem religião, portanto, podiam ser desrespeitados e escravizados. Assim, o negro teve que abrir mão de tudo que acreditava para enfrentar uma realidade de perseguição.
A primeira reação dos negros contra a intolerância religiosa foi uma estratégia de resistência conhecida como sincretismo religioso, ou seja, o africano escondeu a prática de seus valores religiosos por meio da prática da religião do seu dominador, só assim podia cultuar seus orixás, os comparando aos santos cultuados pelos portugueses. Surgindo aí o candomblé e a umbanda no Brasil como forma de resistência dos cultos afros, que continuaram sendo historicamente perseguidos e só obtiveram direitos adquiridos, assim como outras manifestações religiosas no Brasil, a partir da Constituição de 1988. (Fundação Cultural Palmares).
Todas as revelações ditas de Caucaia são resultados de um Brasil invadido, dominado, subjugado aos interesses econômicos de potencias ricas, que tentam impor suas culturas a outros povos, apenas pelo viés do interesse econômico, negando a vida, direitos, costumes, culturas e considerando-as sub-raças.
Esse modo de ver, de ser e de fazer destas potencias dominantes, se instalam dentro dos municípios brasileiros com as mesmas práticas discriminatórias e de exploração. Se levarmos em conta o município de Caucaia como exemplo, vamos encontrar as comunidades negras ou quilombolas, nos topos das serras, do sertão seco e até cercada literalmente como forma de resistência à especulação de “grileiros”, como são ditas nas histórias contadas pelos ancestrais, revelando que suas terras eram extensas como áreas de quilombos das sete comunidades negras que se localizam dentro do município: Serra da Rajada, Serra do Juá, Serra da Conceição, Porteiras, Cercadão, Boqueirão dos Cunhas e Camará.
Hoje no Brasil há políticas diferenciadas para estas áreas. O Governo Lula criou o Ministério da Igualdade Racial e Leis que beneficiam a raça negra. Como forma de reconhecimento da existência destas comunidades em Caucaia, o Governo Municipal na gestão do Dr. Washington Góis, por meio da Secretaria de Articulação Política criou Territórios de áreas geográficas e Territórios das etnias, entre eles o Território Quilombola para tratar das políticas públicas específicas asseguradas na legislação brasileira aos povos negros e quilombolas, bem como às 80 Comunidades Religiosas afro-brasileiras, sendo 15 de Candomblé e 65 de Umbanda já identificadas no município. "A essência das religiões de matriz africana é o culto à natureza, seus elementos, sua sabedoria. Cada orixá representa um elemento da natureza - fogo, água, terra e ar. Infelizmente, por falta de conhecimento de muitas pessoas há a intolerância religiosa. O sincretismo religioso, que teve que ser adotado pelos africanos que não podiam manifestar sua fé, fez uma associação errada dos orixás, como por exemplo associar Exu ao Diabo e não existe o culto ao diabo nas religiões de matriz africana", Afrobrasileiro, Maurício Reis, Diretor de Proteção ao Patrimônio.
Em 2009 algumas ações que foram realizadas no Território Quilombola, como:
Visitas às Comunidades Negras para apresentar o Território Quilombola e o Setor da Igualdade Racial do Governo Municipal;
• Entrevistas com as pessoas mais idosas para conhecer e registrar a história destas Comunidades;
• Reuniões para discutir os direitos das comunidades negras e quilombolas assegurados na constituição brasileira;
• I Conferência Municipal sobre a Igualdade Racial no Município;
• Cadastro dos Terreiros existentes no município;
• Comemoração com shows no dia da Consciência Negra – 20 de novembro;
• Reuniões com Federações e Movimentos Negro do Estado Ceará;
• Encaminhamentos dos Cadastros de Terreiros para o Ministério da Igualdade Racial;
Em 2010 ações em andamento articuladas com as políticas públicas de programas do Governo Federal.
• Reunião com o Programa Mova Brasil da Petrobrás para implementar alfabetização de jovens e adultos nas comunidades quilombolas de Caucaia;
• Reunião com a Rede de Educação Cidadã – RECID Ceará e Rede Talher Nacional – TN para programar Oficinas de Educação Popular e Cidadania nas Comunidades Quilombolas em Caucaia;
• Reunião com Núcleo de Africanidade Cearense – NACE da Universidade Federal do Ceará para incluir professores de Caucaia no Curso de Formação de Professores de Comunidades Quilombolas;
• Encontro de Planejamento da RECID / TN com a participação do Território Quilombola para planejar as Oficinas nas Comunidades;
• Reunião do Programa Mova Brasil com Sec. de Educação e Articulação Política para organizar 10 núcleos de alfabetização nas comunidades Quilombolas;
• Reunião com UFC/NACE para apresentar à Sec. de Educação do Município o Projeto de Formação de Professores nas Comunidades Quilombolas oferecendo 15 vagas para professores fazerem o curso. (A Lei Federal 10639 / 2003 assegura a implantação de educação diferenciada nas escolas de comunidades negras e capacitação em arte e cultural negra);
• Realização de Oficinas nas comunidades negras com vídeos e palestras discutindo o que é Quilombo para sensibilizar sobre o reconhecimento pessoal e coletivo como quilombola;
• A estrada da Serra do Juá esta sendo toda feita em calçamento para facilitar o Turismo ecológico e cultural com trilhas em cima da Serra. – Essa programação já se encontra no Folder da Sec. Turismo. (Comunidade Quilombola)
Pode-se afirmar que o Governo Municipal de Caucaia é hoje uma marca na história dos municípios, tirando a máscara do preconceito e do racismo existente no Ceará, quando se dizia que não tem índio nem negro. O Dr. Washington Góis teve a hombridade de Gestor Público trazendo as políticas públicas especificas das etnias e raças, criando a Coordenadoria de Assuntos Indígenas ligada diretamente ao seu Gabinete e nomeando um Articulador Territorial Indígena e outro Articulador Territorial Quilombola na Secretaria de Articulação Política para tratar das políticas de etnias asseguradas na legislação brasileira.
Dessa forma é que se faz a história dos negros, como foi feita a resistência de Zumbi dos Palmares contra a escravidão, formando Comunidades Quilombolas, Dragão do Mar no Ceará com o levante de não aceitar desembarcar escravos no porto e em Redenção a libertação dos primeiros escravos no Brasil.
Sabemos que isso ainda é pouco, mas são passos de avanços que fortalecem o movimento negro em Caucaia, no Ceará e no país assegurando direitos e a luta por igualdade racial.

Leonardo Sampaio
Educador Popular

sábado, 2 de janeiro de 2010

Casa da Rachel de Queiroz


Jornal O Povo
Artigo

Leonardo Sampaio
02 Jan 2010 - 01h34min

A Casa da Rachel de Queiroz é um patrimônio do povo, foi tombada em 22 de outubro de 2009 ``Decreto Nº 12.582/2009`` pela Prefeita Luiziane Lins, marcando uma história de luta contínuas da comunidade fortalezense desde 1983, quando se iniciou um processo de peregrinação passando por todos os prefeitos desta cidade durante todo esse período.

O Sítio Pici foi adquirido por Daniel de Queiroz, pai da escritora, em 1927 e ali a Rachel escreveu seus primeiros textos, como o poema ``Telha de Vidro``, o Folhetim ``A história de um nome``, o romance ``O quinze`` e ``João Miguel``. (Acioli & Casa do Benjamim).

São tantas as histórias que ouvi contadas pelas pessoas do Bairro Daniel de Queiroz (Decreto 1969) (Jóquei Clube) que conheceram a família da Rachel. Conversei com lavadeira de roupa, engomadeira, senhoras que na época eram criança e brincavam lá, tomava banho no açude, outras que pescavam, tiravam frutas, até um senhor que montava a charrete que a jovem Rachel ia para escola e passeava pelas ruas e estradas do bairro e até eu, que nos anos 60, entrava pela cancela, onde em cima havia um arco com o nome: Sítio Pici, ali ia caçar de espingarda e comer frutas junto com um amigo mais antigo no bairro que conhecia os caseiros dos Sítios. Eram muitos ao lado, tinham uns com nomes interessantes: Sítio do Papai, outro era Sítio da Vovó, outro Sítio do Papai do Céu, todos com vacarias e criação de outros animais de pequeno porte. Era uma região em que o rural misturava-se com o urbano, numa harmonia perfeita para os migrantes do Sertão.

Hoje, sem mais essa harmonia, nos resta conviver na selva de pedra e defender o pouco que ainda sobra de patrimônio histórico que é a Casa da Rachel de Queiroz e o único verde do entorno, como a APA - Área de Proteção Ambiental do Riacho Cachoeirinha e o Açude que fazem parte do contexto dos Sítios. Riacho onde as mulheres lavavam roupas, nas águas cristalinas das cacimbinhas que se formavam na margem.

Nessa área verde que resta, mais a Casa, defendemos que sejam transformadas em ponto de turismo com implantação de biblioteca infantil, com objetivo de incentivar a leitura, tendo como exemplo a própria Rachel e que o entorno da Casa seja preservado com urbanização adequada para lazer.


LEONARDO SAMPAIO
Educador, poeta e escritor
leonardosampaio5@yahoo.com.br

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Carta sobre experiências na Rede de Educação Cidadã

Leonardo Sampaio

Escrevo estas traçadas linhas para dizer que como educador popular na Rede de Educação Cidadã – RECID acumulei um grande aprendizado nas diversas fazes que vivenciei de 2003 a 2009.
A Rede trazia na sua primeira fase a grande mobilização em torno do Programa Fome Zero, com objetivo de implantar os Conselhos Gestores em cada município, para que a sociedade pudesse fazer o controle social do Programa. Naquele ano o Brasil não era mais o mesmo, havia um grande entusiasmo da vitória de Lula, a sociedade estava motivada e fortalecida pelo decreto do Governo Federal que dava autonomia aos Conselhos de intervir diretamente sobre as irregularidades que pudessem acontecer no âmbito do Programa.
Surgia no país um novo contexto político de gestão participativa e isso provocou um grande debate nacional sobre o que fazer e como fazer controle social. Foi um momento em que a sociedade, as academias e os gestores públicos em todos os municípios do Brasil se mobilizaram em defesa do Programa Fome Zero. No Ceará participei do primeiro grande encontro da sociedade civil para discutir a formalização dos Conselhos. Em outro momento, estava também em encontro com Frei Betto, mentor e Coordenador da Rede que veio ao Ceará discutir a importância do envolvimento da sociedade na execução do Programa.
A implantação dos Conselhos Gestores provocou reações dos prefeitos conservadores, que se posicionaram contrários aos Conselhos, argumentando a “intervenção da sociedade e do Governo Federal na gestão pública municipal”. Com esse argumento juntaram-se a Senadores e Deputados conservadores e marcharam rumo a Brasília, exigindo a revogação do Decreto de criação dos Conselhos Gestores. O Governo recuou e mudou o conteúdo, tornando-o mais brando, ou seja, tirando a autonomia da sociedade e dando mais poder aos gestores locais. Esse recuo desmotivou a participação da sociedade e os Prefeitos passaram a executar aos seus modos.
Durante todo esse período, a Rede no Ceará esteve muito presente nessa discussão, inclusive contraria ao recuo do Governo.
Com esse grande desfecho conjuntural, a Rede desencadeia nova estratégia político-pedagógica de realizar oficinas nos municípios para discutir os conteúdos do Decreto e a forma de participação da sociedade e dos gestores públicos a partir das políticas públicas e não só compensatórias. Dessa forma a equipe de educadores do Ceará se divide por regiões e passa a realizar encontros e oficinas de formação sócio-político-pedagógicas para capacitar lideranças e educadores capazes de realizarem novas intervenções nos municípios, integrando gestão pública e sociedade civil na perspectiva da elaboração de projetos e execução das políticas púbicas de inclusão social, direcionados para os beneficiários do Bolsa Família e àqueles que não foram beneficiados, que encontram-se em situações até piores.
Durante esse processo, realizei várias oficinas em doze municípios envolvendo Prefeitos, Secretários de Estado, Pastores, Padres, Pastorais, Sindicatos, Associações, ONGs, lideranças comunitárias, professores, educadores de alfabetização, assentados. Assim fomos constituindo núcleos de educadores em cada município com a finalidade de serem multiplicadores desse processo de gestão participativa. Em alguns municípios havia dificuldade do envolvimento do poder público local, mas as lideranças após passarem por um processo de formação assumiam e seguiam seus próprios caminhos, junto com a Rede de Educação Cidadã.
A terceira fase da Rede no Ceará foi trabalhar com os educadores capacitados nos municípios e estes passaram a fazer oficinas com os beneficiários da Bolsa Família em seus próprios municípios, como forma de sensibilizá-los para o processo de organização, capacitação e resgate cultural da vida no campo e na cidade buscando assim, qualidade de vida, autoestima e produtividade naquilo que conhecem e sabem fazer, seja na agricultura familiar, na arte, cultura e até retornar aos estudos.
Estes foram os passos que trilhei no Ceará, por meio da RECID, durante esta fase, onde fiquei responsável pela Região Metropolitana, o lado leste e oeste do litoral e parte do sertão, envolvendo 12 municípios (Fortaleza, Beberibe, Aracati, Barreiras, Itaitinga, Trairí, Amontada, Itarema, Morrinhos, Meruoca, Milhã e Quixeramumbim, no Sertão Central). Nessa fase a Rede preocupou-se em fazer formação junto às lideranças dos municípios para que estes fizessem o controle social, organizasse as famílias do Programa Bolsa Família e pensassem com as prefeituras, políticas publicas de geração de emprego e renda. Foi um período de grande crescimento sócio-político, inclusive com a retomada das organizações sociais.
Numa outra fase, me envolvi no debate nacional de consolidação da Rede, participei de encontros de formação com educadores de todo o país, da Região Nordeste e ajudei a organizar estudo estadual e Microregionais no Ceará.
Com o processo de consolidação da RECID como organização autosustentável nasce um novo debate sobre as parcerias: quem é e em que nível é a parceria? Ou seja, quais as entidades, ou organizações sociais que constituem a Rede enquanto poder direto, de fato e de direito? No âmbito da Rede sempre foi uma discussão interminável porque ela provoca outra via de debate que envereda pelos altos e baixos da própria organização a nível nacional, onde a Secretaria de Assessoria Especial do Governo com a equipe do Talher controla a RECID nos Estados, o que transparece com uma organização estatal, porém civil, porque envolve ONGs no convênio, na gerência dos recursos e contratos dos educadores. Dessa forma a Rede se torna cada vez menos autônoma, até porque os convênios e contratos de educadores são temporários, portanto geram insegurança e descontinuidade nas atividades. Estes fatores também são motivo do afastamento de várias parcerias porque levam a um desgaste nas suas bases devido à quebra de continuidade nos trabalhos desenvolvidos nas oficinas. Estes são alguns dos desafios que estão em debate na Rede quanto à consolidação. Um dos meios para autonomia da Rede, apontados na última reunião que participei na Coordenação Nordeste, seria transformar a RECID em entidade. Nesse eixo, a forma de construir unidade seria o próprio PPP e PPB para unificar uma linha de pensamento político e promoção de grande debate nacional, com fortes desafios.
A elaboração coletiva do Projeto Político Pedagógico, na perspectiva da construção de um Projeto Político para o Brasil significou uma riqueza de aprendizado acumulado desde os primeiros encontros nacionais, quando ficavam expostas as diferenças regionais, com a tentativa de dominação, buscada muitas vezes no grito, na manipulação ou conchaves. Os grandes encontros nacionais foram mostrando que o caminho não seria esse, para se construir um Brasil diferente com suas desigualdades regionais. Ali havia uma aparência de que todos queriam igualdade política, econômica e social, mas quando se tratava de regiões, as mais ricas queriam sobrepor-se às mais pobres, numa visão de superioridade e inferioridade no olhar econômico e de espécie. Quando o debate vem para o campo dos conhecimentos, saberes e organização, percebe-se que as aparências de fato enganam. Dessa forma o embate ideológico, de raças, de etnias, de brasis perpassando por dentro da RECID, possibilitou toda uma construção coletiva de novos parâmetros para uma convivência harmônica no pensamento de nação.
Para chegar até aí, foi necessário beber na fonte da linguagem de Paulo Freire, Florestan Fernandes, Caio Prado, Darcy Ribeiro, Antônio Gramsci, Marilena Chauí, Karl Marx e outros. No entanto, com todas essas teorias sem o exercício prático de troca de experiências vividas na RECID, seria impossível compreender a dimensão da educação popular que está em curso neste país, lá na base, nas “quebradas”, “nos cafundó”, “nas bibocas”, nas favelas, nas áreas de risco, bairros periféricos, assentamentos resgatando vidas e promovendo cidadania.
Foi aí onde dediquei dias de minha vida, trabalhando na Rede de Educação Cidadã no Ceará, realizando oficinas nas comunidades dos pequenos municípios e em Fortaleza nas favelas da Fumaça e Entrada da Lua no Bairro Pici, fortalecendo as organizações comunitárias locais com formação e capacitação para as lideranças qualificando com mais eficácia suas intervenções nas políticas públicas entre estado e comunidade.
Esse trabalho da RECID, somado à experiência de 29 anos da AMORA (Associação de Organizadores Sociais e Serviço) e do ESCUTA (Espaço Cultural Frei Tito de Alencar), fortaleceu a penetração da comunidade nas políticas públicas governamentais a nível federal, estadual e municipal, proporcionando qualidade de vida e até a tomada de poder em determinados municípios.
Nessa empreitada de organizar o pensamento crítico sobre o papel do Estado e os direitos dos cidadãos e cidadãs a RECID deu uma grande contribuição no Pici, em Fortaleza proporcionando às pessoas passarem a buscar mais o engajamento nas capacitações que o próprio estado oferece dentro das políticas públicas. Ao passo que as pessoas iam participando, ou nos contados surgiam suas carências, novas parcerias ia-se buscar e os serviços foram se concretizando, como: oficinas sobre sexualidade para jovens e adultos, segurança, infraestrutura urbana, políticas de idosos, segurança alimentar. Nestas oficinas e na busca de direitos, foram percebendo a importância da participação e aí entraram nos Conselhos Gestores de saúde e educação, de políticas para juventude, cultura. Ao entrarem nas discussões encontraram outros campos de atuação que são as Conferências de Saúde, Educação, Saúde Ambiental, Segurança, Comunicação. Os idosos descobriram também que nas políticas de saúde, podiam voltar a mastigar com dentes e sorrirem aí foram buscar dentaduras na Universidade Federal do Ceará. Meu Deus! Precisa ver quanta alegria! Algumas nem saiam mais de casa, chegavam a me dizer: “Tenho vergonha de sair sem tente, estou tão feia assim”! Agora cantam, contam historias, dançam, paqueram e as relações em família mudaram radicalmente com autoestima elevada.
As entidades entram nas políticas públicas através de editais e outra parcerias nas áreas específicas às quais atuam, com princípios e missões humanamente solidários e compromissados com a transformação da cruel realidade.
A juventude do Pici recebeu formação como arte educador, voltaram a estudar e entrarem nas Faculdades por meio do Prouni e de vestibular nas Universidades Públicas. Muitos destes estão empregados na própria Prefeitura e participando na comunidade. Trabalhar com a juventude foi uma forma que encontramos, para que os trabalhos não sofram descontinuidade, principalmente qualificando-os como técnicos da área acadêmica, sendo eles da própria comunidade e que darão seqüência planejando as ações de acordo com suas próprias necessidades.
Assim, com a RECID pude dar minha colaboração como Educador Contratado e em outras horas como voluntário por acreditar ser esse o caminho da construção de uma sociedade justa e solidária capaz de promover a redenção do Ser humano e do universo.
Fortaleza, 29/08/09

domingo, 23 de agosto de 2009

CARTA PEDAGÓGICA DO CEARÁ

Ah! Quantas histórias e experiências de vida, ações que não param de acontecer. A RECID do Ceará é assim, iluminada pelo sol queimante lavado pelas águas caídas do céu, juntando torrões, o sertão virando mar e o mar ficando doce. Os peixes se amando e alimentando a fome de beleza.
É nesse leito de serra, sertão e litoral, que a Rede de Educação Cidadã - RECID no campo e na cidade se encontra com as questões ambientais, com a arte e cultura como movimento vital gerado no seio do povo, onde a juventude, mulheres, idosos, quilombolas, indígenas, pescadores, promovem desenvolvimento a partir da agricultura familiar, economia solidária, lutas urbanas e campesinas.
A REDE no Ceará é inspirada nos anseios das diversidades intergeracionais que orientam suas especificidades dinamizando potenciais e promovendo a valorização da dinâmica dos movimentos populares.
É nessa dinâmica que as pessoas se manifestam e se desnudam de seus sentimentos, desejos e sonhos. Expressam suas necessidades e carências que remete a um interagir com as políticas públicas. Gerando processos de capacitação, formação, autoestima, esperança, amorosidade, engajamento, conquistas e execuções efetivas de qualidade de vida.
Dessa forma, descobrem-se jóias preciosas, que são pescadas com fitas coloridas e com arte que vão dando laços afetivos, melhorando as convivências inter pessoais e coletivas, valorizadas no contexto da educação popular.
Esse é o jeito do fazer formação no Ceará, fortalece as manifestações populares e dialoga com as diferenças na busca do desenvolvimento local e universal.
É importante ressaltar que esse jeito de fazer é resultado do amadurecimento, na convivência dos conflitos gerados no processo interno e externo presente nas relações de gestão e conjuntura.
Compreendemos que nessa caminhada valoriza-se o Ser e os sonhos na perspectiva da construção do Projeto Popular para o Brasil.

“A vida é feita de glória
Para curtir e amar
Sentir a felicidade
Olhar o outro e mimar
Fazer a proximidade
E assim conquistar
Vida com qualidade”.

Leonardo Sampaio

RECID CEARÁ

EDUCAÇÃO PUPULAR É FAZER PENSAR

Fazer educação popular

É mergulhar no mundo dos pobres,

E fazer ele pensar,

Pra entender seu sofrimento

E assim poder cobrar

Direitos constituídos

Sem precisar mendigar.



O ESCUTA faz assim,

Com a arte popular

Reunindo toda família

Para em grupo conversar,

Contar suas histórias

E da infância lembrar

Dos tempos felizes de ontem

E com alegria cantar

Revivendo o passado

Pegando o ritmo a dançar

Tornando-a terapia

Trazendo na arte popular

Saúde e qualidade de vida

Pra quem vivia a chorar.



A família não é a mesma

Passa a ter outro olhar

Compreendendo sua história

Todos ficam a acreditar

Que a vida é feita de glória

Pra curtir e amar

Sentir a felicidade

Olhar o outro e mimar

Fazer a proximidade

E assim conquistar

Vida com qualidade.



Assim, a RECID também faz

Com a linguagem popular

Oficinas de formação

Pra poder conscientizar

Que existem políticas públicas

E que todos tem que buscar

Como direito assegurado

Para a vida melhorar.


Leonardo Sampaio*
16/08/09

sábado, 2 de maio de 2009

Oeste Metropolitano na luta por qualidade de vida

A Região Metropolitana de Fortaleza do lado Oeste, historicamente registra há vários séculos a existência indígena, começando possivelmente pela Tribo Anace que habita no Litoral Oeste cearense, de Caucaia a São Gonçalo do Amarante.
Buscar esta memória é tentar entender o racismo ambiental predominante no poder público e se os índios do lado Oeste ainda amedrontam os “homens brancos” da Aldeota que desprezam uma parte das Cidades de Fortaleza e Caucaia.
É interessante registrar que no lado Oeste fica localizada uma das paisagens mais bela da natureza, que são os mangues do Rio Ceará e do Rio Maranguapinho, além do encontro com o mar na Barra do Ceará entre dunas, praias belíssimas, riachos e lagoas.
É também no Oeste de Fortaleza, estendendo a Caucaia que concentra em espaços urbanos, grande massa de trabalhares e trabalhadoras oriundas da migração rural, por ausência de políticas públicas de convivência com o semiárido e da acumulação capitalista das riquezas produzidas, das extraídas da natureza, das novas tecnologias e do mercado financeiro.
Entre estes migrantes do Oeste, se misturam as raças brancas, pardas e etnias indígena, negra e quilombola. São povos “sobrantes” no mercado capitalista. Na sua grande maioria com pouca instrução educacional e capacitação profissional, razão pela qual sofrerem descriminação racial, ambiental e padecerem de cuidados e comprometimento dos governos com as políticas públicas que lhes dê qualidade de vida.
E por falar em qualidade de vida, essa população urbana do Oeste, não encontra nem mesmo espaços para cuidar da saúde por meio de caminhadas, esporte e lazer. Tanto em Fortaleza, quanto em Caucaia as caminhadas são feitas nas calçadas das avenidas entre fumaças de gás carbono dos carros e o risco de acidentes.
Mas não basta apenas lamentar, constatar, é necessário lutar, mesmo sabendo que a humanidade é assim, uns acomodam-se esperando o manjar cair do céu, ou simplesmente acreditam que os poderosos irão resolver tudo e outros reagem como fez o povo de Deus, através de Abraão, inspirado em Javé e foram à luta em busca de espaço para viver com dignidade. Assim também faz o povo do Oeste de Fortaleza que junto à Câmara Municipal de Fortaleza realizará uma Audiência Pública dia 7 de maio de 2009, no Colégio Santa Isabel às 14:00 horas, para cobrar a construção do Parque Rachel de Queiros e em Caucaia haverá a I Conferência Municipal da Igualdade Racial que acontecerá dia 5 de maio de 2009, no Salão Paroquial.
E assim o oeste metropolitano se manifesta por qualidade e plagiando dizemos: A luta continua, porque povo unido, jamais será vencido, por isso humanidade uni-vos.

Leonardo Sampaio
Educador - 02/05/09

Obra, poder e ação

Obra é sinônimo de quem faz,
Fé sem obra é nanição,
Obra no poder público,
É sinal de corrupção
Obra com fé
É sinal de salvação.

Muitos se arvoram no poder
Tendo como inspiração,
O desejo de se dar bem,
Outros com amor no coração
Querem fazer o bem
Inspirado no Deus da comunhão.

Poder e obra não se separam,
Assim Jesus nos ensinou,
Obra é a luz que alumia,
Poder é o dom que lhe enviou,
Para partilhar com natureza,
Os bens que a todos confiou.

A humanidade destoa
O poder que Deus lhes deu,
Por isso sofre Ele,
A natureza e os filhos seu,
Devido à ganância e o egoísmo
Que permanece no fariseu.

Com essa oração matinal,
Faz aumentar minha fé,
Que o mundo tem jeito,
Sem o mau do lucifé,
Mas com o amor de Maria
E o espírito de José.

Assim concluo dizendo
Que essa minha oração
Tirada do peito e da alma
É fruto da inspiração,
No Cristo libertador
Que me deu obra, poder e ação.

Leonardo Sampaio
19/04/09

sexta-feira, 10 de abril de 2009

ESCUTA 29 anos nos caminhos revolucionários



A busca de se seguir os passos no caminho que seguiu Jesus Cristo, o maior líder da terra, o homem que revolucionou o seu tempo e os templos é um desafio. Porque ele foi um homem capaz de confrontar poder político, econômico e religioso em defesa dos pobres, humildes, marginalizados, desprezados pelos três poderes. Encontrou ali o povo de Abraão, de Davi, de Moisés, da Região de Israel, Palestina, Canaã era o povo hebreu e judeu.

A arma mais poderosa, mais contundente e incisiva que levava para o combate, era o amor a humanidade. Para ele ninguém e nenhum poder tem o direito de escravizar, de tornar seres humanos e a natureza em deposito de lixo.

Como instrumento para o enfrentamento, levou em seu patuá munições capaz de enfraquecer o inimigo e diante deles puxou o gatinho e atirou com palavras que se fez verbo, anunciando que o verdadeiro amor se pratica com justiça, fraternidade, humildade e ação. Como bom guerrilheiro se fez profeta denunciando que quem pratica opressão e destruição em detrimento à vida não será digno do Reino de Deus.

E assim, com estes ensinamentos, o verbo se fez palavra na Favela da Fumaça, periferia de Fortaleza em 10 de abril de 1980. O tempo foi de ditadura militar, de perseguição, tortura, assassinato, de capitalismo selvagem, de Igrejas conservadoras. Por estes motivos o profetismo de Jesus Cristo se fez presente com palavras geradoras nos caminhos da liberdade, com a presença viva do nosso pastor maior D. Aloisio, das freiras, padres, seminaristas e pessoas leigas politizadas, missionárias que foram para o enfrentamento com a munição evangelizadora da fé, da esperança, da organização social em busca de melhorias da qualidade de vida, de moradia, de trabalho, saneamento e cidadania.

Morava ali uma população migrante das secas, das cercas, da fome, do latifúndio e foram jogados no espaço urbano, no mais elevado mundo do capitalismo anticristão. Eram brasileiros, brasileiras, nordestinos, nordestinas criaturas humanas vivendo em ambientes desumano. A esperança é depositada em Deus e nos poderosos, não vislumbram em si a capacidade de alcançar os sonho e a utopia. Aguardam apenas o manja cair do Céu, ou sobreviver de acordo com a vontade de Deus. Transfere assim para Deus um pai malvado, cruel que lhes oferece para vida o sofrimento, o comodismo. Os direitos estão nos ricos e pra si apenas a caridade.

Em meio a esse povo é que nasce a Comunidade Eclesial de Base - CEBs da Fumaça e o Espaço Cultural Frei Tito de Alencar - ESCUTA que completam 29 anos nos caminhos revolucionários de lutas e construção da cidadania.

A fonte inspiradora que fortalece essa resistência e insistência é a fé no Cristo libertador, que confiou apenas em 12 companheiros e ainda foi traído por dois, mesmo assim não desistiu de levar adiante seus ideais de salvar a humanidade dos males causados pela ganância, o egoísmo e o individualismo.

Leonardo Sampaio
Educador e poeta