sábado, 30 de agosto de 2008

O QUE É POLÍTICA, SER POLÍTICO E FAZER POLÍTICA

Leonardo Sampaio
Educador Popular

Quando nos deparamos com o mundo político, o concreto da política, nos dar a entender que existem diferenças entre política, ser político e fazer política. Se não vejamos.
Política é uma ciência, é arte, é o meio de se fazer o bem comum, de cuidar, de promover a felicidade humana, de preservar o planeta.
No entanto a política é entendida pelo senso comum, apenas como um processo eleitoral para eleger pessoas com os seus devidos cargos, de: Presidente, Governador, Prefeito, Senador, Deputado, Vereador e o eleitor vota apenas para cumprir com sua obrigação com o Estado, que o obriga a ir votar. Mas tem outra categoria de eleitor que busca negociar o voto de forma individual, ou mesmo coletivo conforme o tamanho do seu curral eleitoral.
Ser político, na essência da palavra, é fazer valer os direitos dos cidadãos/ãs e o dever do Estado, conforme prever a legislação, a constituição. É ter a capacidade de envolver a sociedade e envolver-se na defesa intransigente da justiça, da equidade, da fraternidade, ou seja, é viver a construção de um mundo justo.
No senso comum, a política e o político são visto através da chamada politicagem, que corresponde às práticas exercidas como forma de alguém “se dar bem”, de se aproveitar do poder para tirar proveito próprio, de desviar o papel do Estado, de promover políticas assistencialistas, tornando as pessoas dependentes do político.
Esse tipo de político vê na política, o outro, como objeto que se transforma em voto, em mercadoria, é algo que pode dar lucro. Basta servir para elevá-lo ao poder, não importando os meios, o compromisso e muito menos a ideologia.
Fazer política exige de quem vai exercer um cargo ou mandato ter ética, compromisso, dignidade, honestidade e conhecimento do seu papel enquanto gestor.
Por tanto fazer política, no modelo econômico capitalista, no estado burguês, a palavra honestidade é sinônimo de abestado. Nessa política, o ser político, faz política com pê minúsculo, e utiliza a gestão pública para fazer corrupção, criar status, ter prestigio, ter poder, acumular riquezas, oprimir, ter influencias.
A política é feita como meio de gerar dependência, de alienar e alimentar currais eleitorais, de exercer o assistencialismo, a opressão e a exploração. A maneira de dar sustentação a essa política é manter o analfabetismo, o desemprego, falta de moradia, saúde, transporte, educação, reforma agraria.
Nesse contexto, o grande questionamento que se faz, é que ambas as formas de se ver ou fazer política e exercer cargos, exige a presença do eleitor. É ele que leva o político ao poder. E quem é esse eleitor? É um eleitorado que apenas um pequeno índice tem convicção ideológica, é consciente, sabedor do seu dever, do dever do estado, do político, da função do político, da formação cidadã.
Assim sendo, o processo eleitoral é utilizado através dos diversos meios para se chegar ao poder, ele vai variando conforme cada indivíduo, uns compram votos com moeda, os que estão no poder usam a máquina pública para fazer currais eleitorais, outros usam o poder do convencimento pessoal, coletivo e/ou ideológico.
O certo é que, através do voto, sem dinheiro, dificilmente o político honesto chega ao poder. O eleitorado é viciado, tanto no campo, quanto nas Cidades. E isso é o que facilita a classe dominante fazer seus lobes e perpetuar no poder, seja no executivo, ou legislativo.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

SEMANA CULTURAL, É HORA DE AVALIAR.

É hora de avaliar,
É hora de reflexão,
É hora de interiorização espiritual,
É hora de extrapolar as emoções,
É hora de chorar,
É hora de ser solidário,
É hora de sorrir,
É hora de amar,
É hora de ser feliz.
É hora..., é hora...

A Semana Cultural do ESCUTA é um evento que reuni produções culturais e faz acontecer as trocas culturais dos saberes populares e promove a solidariedade.
Os oito dias de programação de cultura e arte fez-se trilhas culturais no Pici, lembrou para não repetir mais, celebrou a vida e morte de Tito, contaram-se histórias com direito a banquete literário, fizera-se performance poéticas, os tambores tocaram, as câmaras escuras mostraram a tortura, as fotografias encantaram as crianças em oficinas, as artes plásticas foram expostas, os murais, os cânticos, batuques, roda de capoeira, mística afrodecendente e afoxé africanizaram brasileiramente com rítimos e danças, as estrelas brilharam nos céus e no palco, a lua romanticamente iluminou com direito até a eclipse, o orvalho molhou as folhas do jardim, as nuvens abrilhantaram a festa com uma bela chuva refrescante onde as águas corriam nas biqueiras, produzindo contrastes entre as luzes do palco, as flores das mangueiras sob a luz do luar e o sorriso nos rostos das meninas do Raízes Nordestina, prontas para embelezarem nossos olhos com danças folclóricas, impedidas pela chuva advinda entre os raios do relâmpago e o som ritmado do trovão, que fez as gotas d’águas que caiam dançarem na quadra, a ciranda do Escuta.
E assim as noites chegavam poéticas e surpreendentes com Miraíra encantando com cores, musicas, xaxado no cangaço de Lampião e Maria Bonita e imagens dos revolucionários socialista da América Latina.
As crianças da comunidade, isentas na programação, chegaram e bradaram, hei! Aqui é nosso lugar e aí subiram no palco dançaram e o público aplaudiu.
A amostra atos de ontem e de hoje em documentários do santo oficio libertária cristão revolucionário, politizava a educação popular com metodologias libertadoras.
A roda de capoeira do Pici com o Mestre Pequeno, as bandas mandacas do BomJart, soltando a voz e água de quartinha sonorizavam com pífano, cordas e alfaias ritmando as corridas das crianças, que com alegria sorriam e brincavam no circo de fantasia.
A festa tava animada e empolgou as meninas adolescentes da comunidade que logo se organizaram ensaiaram e disseram, também queremos ter vez, subiram no palco e extrapolaram energias com muita dança e beleza.
A arte de ler pintou a melodia poética, na casa das mulheres da lua, com cavaleiros da dama pobreza e os jogueiros, fazia história viva, teatralogada no silêncio curioso da platéia.
As energias da juventude encheram de alegria a noite das bandas cabeças de giraçois com a musicalidade popular brasileira, Beltsons misturava o rock, e as jovens mulheres di dóris fizeram a galera vibrar, gritar e dançar, a flor de cactus traz a mistura poética nordestina, cantada e declamada.
E assim a fulô de aurora, cangaia de cueca e animação cultural do escuta fecharam com roda de ciranda, a décima oitava Semana Cultural do ESCUTA – Espaço Cultural Frei Tito de Alencar.

Leonardo Sampaio
Educador popular
17/08/08

terça-feira, 5 de agosto de 2008

O ESCUTA há 28 anos e a Semana Cultural há 18 anos

O Espaço Cultural Frei Tito de Alencar - ESCUTA, com seu jeito próprio de amorosidade à cultura popular e dialogicidade com os que fazem a produção artística na periferia de Fortaleza, faz acontecer a XVIII SEMANA CULTURAL de 9 a 18 de agosto de 2008.
A Semana Cultural do ESCUTA é, existência e resistência com resultados das sementes lançadas em terrenos férteis, nos caminhos construídos na educação popular, que perpassam pela esperança, sonhos, utopia e teimosia em nadar contra a maré da sociedade mercadológica, consumista. Isso se dá, porque há uma intencionalidade ideológica dos educadores populares que acreditam na capacidade do ser humano de superar o individualismo e enxergar o mundo do ponto de vista da emancipação humana e planetária.
É com essa intencionalidade que o ESCUTA, a partir da educação popular, ensinando, aprendendo, torna-se a escola de formação de animadores culturais que dialoga com as diversas linguagens artísticas produzidas no nordeste brasileiro e traz para Semana Cultural, onde as expressões se manifestam desde o teatro, a musica, a capoeira, a cultura afro-descendente, indígena e acorda a cidade adormecida que sonha com a originalidade da cultura popular, do bumba-meu-boi, o reisado, o pastoril, o maracatu, o côco, a ciranda, o xaxado, o xote e o baião.
A Semana Cultural do ESCUTA é também o espaço aonde a pessoa de boa índole cultural, vem curar sua enfermidade da doença adquirida no lixo do comércio midiático áudio-visual que invade o país descaracterizando a cultura popular e banalizando a mulher.
Por isso o ESCUTA há 28 anos e a Semana Cultural há 18 anos, se constituem como um foco de guerrilha cultural encravado na Cidade de Fortaleza, no bairro Pici, na Rua Noel Rosa, 150, espalhando arte, cultura e educação popular acreditando que com amor, fraternidade e solidariedade outro mundo é possível, assim como acreditou Frei Tito, que deu a vida por essa causa em 10 de agosto de 1973, data em que o Escuta, celebra a cada ano, na Semana Cultural, como forma de não deixar apagar na memória da crueldade dos anos de ditadura militar e tortura no Brasil.
Esse mundo utópico é o elemento principal gerador dessa força existencial, resistente e revolucionária no ESCUTA, que coletivamente produz e aglutina frutos pensantes com muitas mentes, corpos e mãos que com o pé no chão, o coração e a força espiritual cósmica, planetária, eleva a auto-estima de homens, mulheres, adultos/as, jovens, adolescentes e crianças excluídos do modelo econômico capitalista, que com um outro olhar para o mundo gera novas vidas.
Realizar uma Semana Cultural para o Escuta, dentro deste contexto histórico, é uma oportunidade de discutir e reler um período da nossa história que não desejamos que retorne nunca mais. Mas é acima de tudo uma celebração pela vida que pulsa dentro de cada um de nós, artistas, educadores/as militantes sociais, políticos, moradores da Cidade de Fortaleza.
A Semana Cultural do ESCUTA é, portanto, um momento de celebração, de convergência e de diálogo entre as diversas expressões que compõe o universo e o mundo da vida dos moradores da periferia. E, sendo assim, convidamos a todos/as a fazer parte dessa grande festa, onde todos são artistas e espectadores.
O convite está feito e visitando os blogs: www.banqueteliterario.blogger.com.br, www.grupoescuta.blogspot.com, www.leonardofsampaio.blogspot.com, você pode ver a programação e outras produções.

Leonardo Sampaio
Educador Popular, poeta e Pedagogo.
05/08/08

domingo, 13 de abril de 2008

INSERIDO NA DINÂMICA DOS MOVIMENTOS

Tendo os meus pais envolvidos com os chamados movimentos populares desde muito tempo antes de eu nascer, acabei me inserindo desde cedo na dinâmica desses movimentos, participando sempre direta ou indiretamente das atividades, principalmente no ESCUTA. Desse modo, desde pequeno fui me familiarizando com a opção de vida escolhida pelos meus pais dentro da realidade da Educação Popular.
No decorrer dos anos fui me empoderando mais intensamente das atividades do ESCUTA, entrando na adolescência para o Grupo de Jovens Utopia, que estava inserido dentro do ESCUTA. A partir do rumo que o grupo foi tendo eu fui me envolvendo e assim comecei a fazer teatro juntamente com o Grupo. Aos poucos o grupo de pessoas que faziam teatro foi ganhando independência e passamos a nos identificar como um grupo de teatro, mas que estava diretamente ligado às atividades do ESCUTA.
No decorrer do tempo o grupo de teatro ia se desmanchando por conta de problemas pessoais, principalmente familiares, pela necessidade de sobrevivência. Tendo em vista isso, para não acabarmos com o grupo e não deixarmos de fazer o que gostávamos, resolvemos continuar fazendo teatro, mas buscando uma profissionalização ligada juntamente com a nossa formação humana. Assim, a necessidade nos impulsionou a transformar o ESCUTA em ONG para que ficasse mais fácil conseguirmos recursos e tornar a continuidade do grupo viável. Criamos então, juntamente com o nosso então diretor de teatro Wellington Pará o projeto Círculos de Cultura Brincantes e conseguimos através dele a assessoria da professora Ângela Linhares da Universidade Federal do Ceará.
Por volta de 2003 iniciamos o projeto, que buscava nos formar enquanto pessoas tendo em vista uma profissionalização e ao mesmo tempo interferirmos na realidade da nossa comunidade. Começamos então a nos capacitarmos como Animadores(as) Culturais num processo de teoria e prática. Com o conceito de Animação Cultural que foi sendo construído por nós, abrangemos as nossas habilidades artísticas e eu fui deixando de fazer teatro, mas não deixei de interagir com ele, pois fiquei na área de percussão justamente ligada ao teatro.
No ano de 2004 eu me afastei do grupo para estudar para o vestibular e depois de ingressar no curso de Filosofia na Universidade Federal do Ceará, retornei ao Projeto Círculo de Cultura Brincantes, onde continuo até os dias atuais, continuando o processo de formação em Animação Cultural e arte educador.

Leandson Sampaio.

Ciranda do mangue e da cidade

É na roda que te vejo
E encontro tua beleza
Olho dentro dos teus olhos
Sinto logo tua pureza

Na ciranda dou as mãos
Giro a roda e acerto o paço
Aprendo a letra e vou cantando
Dançando o ritimo no compasso

A ciranda da vida
É da solidariedade
É do vila velha
É do mangue e da cidade.

A ciranda é das crianças
Da serrinha e lagamar
Do escuta e bom jardim
Da granja e todo lugar

A ciranda é juventude
É arte e é cultura
Do palmeiras ao pici
Tem farinhada e rapadura

A ciranda é do adulto
Do idoso e da mulher
E luta pelos direitos
De mãos dadas com o talher

Cirandeiros e cirandeiras
Ta na hora de cirandar
Dar as mãos de guerreiros e guerreiras
Pra o sistema acabar

Esse mundo da ciranda
É da música popular
Nascida no seio do povo.
Pra dançar e rebolar

Leonardo Sampaio
Cirandeiro e educador popular
02/04/06

O mundo muda, o mundo será mudado


O mundo muda
Quando eu mudar,
Se eu mudar
O mundo mudará
Se eu e você mudarmos
O mundo será mudado.

Leonardo Sampaio

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

O CSU César Cals e as Comunidades Eclesiais de Base - CEBs

Conceitos teológicos e filosóficos que influenciaram a gestão no CSU César Cals
Leonardo Sampaio

Criado em família religiosa, com formação católica de um cristianismo conservador, fui crescendo até que, nos primórdios de 1973 comecei a conhecer o marxismo. Fui me apaixonando pelo tema e passei a seguir os rumos da construção da revolução brasileira a caminho do socialismo. Daí passei a entender as religiões como ópio do povo, uma forma de levar as pessoas a não pensar o mundo como ele é, e acomodá-los na busca da salvação eterna, ou seja, esperar a morte chegar para alcançar a felicidade num encontro com Deus lá nos céus. Um cristianismo punitivo, a quem se rebelar contra a ordem posta, com uma pregação do medo, será castigado e condenado ao purgatório ou ao inferno. Com esse olhar para a Igreja, fui renegando as religiões e seguindo os caminhos do ateísmo, até no início do ano 1979, comecei a conhecer e despertar para a Teologia da Libertação, a encontrar um Cristo Libertador e após longo tempo de afastamento da religiosidade aprendida nos sertões nordestinos do cariri do meu Ceará. Retomei o caminho do cristianismo, porém numa via revolucionária que visa construir a cidadania como forma de defender a vida do planeta e dos despossuídos do modelo capitalista. Deparei-me com dois modelos de Igrejas: um que busca a libertação dos pobres, e outro que servia apenas como aparelho da forma capitalista de governar e que tinha como serviço na sociedade amenizar os conflitos entre ricos e pobres, oferecendo um paraíso de igualdade no céu, que após a morte não haveria desigualdade e que todos os que se arrependerem dos seus pecados mereceram esse paraíso sem divisão de classes.
Mesmo diante desse modelo de Igreja conservadora, já fazia uma leitura crítica das revoluções socialistas no mundo diante da radicalidade do ateísmo em relação ao cristianismo, porque entendo que não é possível fazer a revolução sem a participação dos cristãos, principalmente na América Latina, tendo em vista a religiosidade popular, a grande fé do povo. Percebia que na preparação do processo revolucionário, era possível reverter essa situação da consciência ingênua, a partir da construção de uma cultura com visão libertadora no imaginário popular em relação à Igreja, levando até ele uma leitura crítica da Bíblia e a descoberta do Cristo Libertador. Faze-lo pensar e entender que essa Igreja conservadora é dissidente dos princípios de Jesus Cristo, que ela tornou-se um grande instrumento da burguesia marcada pela ideologia capitalista e pelo poder.
Com essa compreensão de mundo resolvi me engajar e as primeiras atividades comunitárias que me proporcionaram identificar campos teológicos, filosóficos e políticos divergentes em relação à Igreja e ao poder, foram as Comunidades Eclesiais de Base – CEBs na Fumaça – bairro Pici. Lá se deu concretamente esse confronto entre o poder da Prefeitura de Fortaleza, representada pelas Doutoras do Serviço Social, do Centro Social Urbano Gov. Cesar Cals, fortalecendo a política da Ditadura Militar através dos Partidos políticos Arena e posteriormente o PDS, que naquela época mergulhava o Brasil em violência política e física, com torturas, assassinatos e exílio com o objetivo de entregar nossas riquezas e nossa Pátria às empresas multinacionais, fortalecendo o capital internacional e em particular os Americanos do Norte. Enquanto isso aumentava a pobreza e a migração das populações do interior para as Cidades, inchando os espaços urbanos e formando novas favelas.
Essa política se fortalecia com o assistencialismo. A Diretora do Centro Social Urbano aparecia como a mãe dos pobres, e com isso ela criava uma dependência nas pessoas e ia formando seus aliados e suas aliadas, suas crias, os cabos eleitorais, que se alimentavam da ideologia dominante capitalista que eram transformados em voto pelos cabos eleitorais que são pessoas simples do povo, analfabetos ou semi-analfabetos, despolitizados e que passam a ser massa de manobra dos políticos politiqueiros representantes dos mesmos partidos da Dra. Chiquita, ou seja, os partidos criados ainda no Império Português na época da invasão do Brasil com os exploradores das terras indígenas, o que eles chamam de descobrimento e civilização.

Caminhos para uma administração direta

Foi dentro deste contexto histórico que em 1986, Maria Luiza se elege Prefeita de Fortaleza e me convida como membro das CEBs, como educador popular e militante, para ser Diretor do Centro Social Urbano César Cals – CSU. Ao assumir o cargo, convido as organizações comunitárias para pensar um modelo de gestão participativa para administrar em conjunto com o corpo de funcionários. Assim, iniciamos a gestão e a experiência foi um sucesso, a população sentia gosto em participar, dar opiniões e executar, era um modelo de administração direta no âmbito da Prefeitura. As pessoas tinham a oportunidade de perceber qual a função da sociedade civil, qual a importância daquele órgão público pra ela e como fazer funcionar com a participação da sociedade civil organizada.
Era um processo de aprendizado havia reações com a presença de pessoas pensando e fazendo junto sem ser funcionário/a na verdade era uma tarefa difícil, porque tínhamos ali, parte do funcionalismo viciado e sem formação profissional para atender e conviver com a população, era um poder distanciado, enquanto isso, a população desorganizada estava acostumada com políticas assistencialistas e sempre a espera de políticos e cabos eleitorais. No decorrer da gestão os funcionários, iam revelando as relações políticas, às vezes até com arrogância, como se elas ainda tivessem poder de interferir na administração. Por outro lado a comunidade organizada pôde perceber de perto a desqualificação dos serviços prestados e sentiram que a culpa era da Prefeitura por não abrir concursos e colocar pessoas na folha de pagamento através de indicações de políticos.
As distorções sobre a gestão públicas era uma coisa tão absurda que só no CSU César Cals havia 230 funcionários, entre estes, 60 eram contratados como datilógrafos e só dois sabiam datilografar, ao mesmo tempo, só havia uma máquina de escrever, quanto aos técnicos havia 22, parte deles, eram contratados como professores(ras) com nível superior ganhando 200 horas aula e mais 40% de pó de giz, sem ter no CSU nenhuma sala de aula. Na verdade eles eram técnicos nas áreas de: fisioterapia, médico, psicologia, agronomia, piscicultura, pedagogia, assistente social funções que quase não havia naquele órgão e gerava certa ociosidade. O desafio era abrir um diálogo com eles e criar espaços para que pudessem prestar serviços à comunidade e aí fizemos muitas coisas bonitas que contarei adiante.
Mas nem tudo foi maravilha, a luta nossa era regulamentar seus contratos de acordo com as funções de cada um, o que criou um impasse devido ao piso salarial das categorias rebaixarem os salários, que antes era de professor com 200 horas e mais pó de giz e aí faziam grandes protestos em nível de prefeitura, dizendo que era incoerência do PT e da Prefeita Maria Luiza em reduzir os salários.
Esse quadro se soma a outros, com a exigência de pagamento dos cinco meses de atraso dos salários deixado pelo Prefeito tampão Barros Pinho. Para completar a direita estava enfurecida, por tere perdido o poder para a esquerda identificada com o PT. Por outro lado havia um racha muito forte da esquerda comandada pelo PC do B, que não admitiam a existência do PT, já que historicamente eles representavam essa esquerda, enquanto isso, o grupo ligado a Maria Luiza e que estava comandando a prefeitura vinha de um racha com o PC do B e eram inimigos políticos. Dessa forma o PC do B se alia a direita e comandam greves em todos os setores da prefeitura. Partem pro ataque “O PT num manda fazer greve”? Pois agora vamos fazer. No CSU durante um ano de março de 1986 a março de 1987 em que fiquei na Direção, os funcionários só trabalharam quatro meses e ainda alternando entre uma paralisação e outra. Mas, como eles também não iam para as manifestações, fiz um convite para organizarem durante a greve um processo de formação sobre relações humana e outros temas e assim foi feito um trabalho de capacitação com ajuda de pessoas e instituições.
Foi nesse ambiente que o Centro Comunitário como era chamado popularmente, funcionou e foi devido à experiência administrativa, política e de trabalho comunitário junto às Comunidades Eclesiais de Base - CEBs, que permitiu exercermos uma administração direta, transparente, em que a própria comunidade com a participação de alguns funcionários assumiu os diversos setores de interesse da própria população, como: esporte, artes, cultura, piscina, etc. O povo organizado fazia mutirão e até lavava o prédio, se sentiam de fato integrados, sentiam-se Direção.
Os depoimentos de quem vivenciou as diversas fases do CSU, mostram que esse período foi o único em que os moradores participavam de fato daquele espaço, porque a gestão era construída com eles e não só para eles. Vários funcionários entraram nesse espírito participativo e se integraram no mutirão, nessa ação coletiva. Obviamente que uma grande parte de funcionários se negaram a participar.

O Setor de Esporte do CSU estava paralisado há alguns anos, antes de mim, o campo de futebol cheio de mato, lama, as traves enferrujadas, a quadra toda quebrada, as piscinas cheias de lodo e até sapo morto. Os funcionários se recusavam a limparem, aí convidei os times de futebol da comunidade para pensarmos soluções de funcionamento de tudo isso. Na primeira reunião vieram doze times e tiramos como encaminhamentos: mutirões para recuperar todos os equipamentos; criar um campeonato de futebol, criar uma liga esportiva. Com a criação da Liga Esportiva do Pici ela passou a gerenciar as piscinas, campo, quadra, criamos o primeiro campeonato de futebol do Pici, desmatamos a Base Velha e construímos 18 campos de futebol, acabando com o espaço de desova do esquadrão da morte, e transformando num grande espaço esportivo da Cidade onde reunia muita gente aos domingos com a movimentação do campeonato.

No Setor cultural convidamos os grupos culturais e recuperamos o auditório, passávamos filmes uma vez por semana e fazíamos festas dançantes, festival de calouros e festas juninas.

No Setor de saúde mesmo estando dentro do CSU, sempre quis caminhar independente porque se consideravam de outra Secretaria com outra gestão, mas sempre quando eram convidados davam sua contribuição.

O Casulo era um espaço das crianças e vinha bastante merenda que sobrava daí organizamos com as cozinheiras um lanche todos os dias para as crianças da comunidade, era alimento pra todo mundo.

O programa de suplementação alimentar – PSA vinha uma cesta básica todos os meses para 700 crianças e 300 mulheres gestantes, no inicio faltava alimento até que descobrimos um esquema de furto, por parte de funcionários. Então passamos a organizar de forma que dava pra todos e para não ficar muito tempo na fila esperando encher as sacolas, convidávamos essas pessoas para irem para uma sala e lá eram dadas palestras pelos técnicos de saúde e outros.

O grupo de produção estava muito reduzido devido o desestimulo na comercialização, aí convidei uma jovem conhecida como catequista na Paróquia de Antônio Bezerra, para fortalecer os trabalhos e quando foi um dia descobrimos que ela estava roubando os tecidos, linhas e etc.

Em meio a essas investigações descobrimos que tinha uma pessoa contratada como Assistente Social e que era falsa, nunca tinha passado por uma Faculdade.


Leonardo Sampaio
Educador, Pesquisador e Pedagogo.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

DOM, TÁ VIVO NA TERRA E NA ETERNIDADE

Hei Dom, você tá vivo. lembra das nossas lutas e caminhadas de fé e esperança? Fé e libertação? Fé e política? Fé e opção pelos pobres? Lembras da tua visita pastoral as Comunidades Eclesiais de Base – CEBs da Fumaça, Entrada da Lua e Inferninho? Da caminhada realizada na Favela? Foi tão libertadora que as famílias ainda hoje falam da sua humildade e simplicidade, do seu sorriso dando a mão, falando com cada pessoa pobre e abençoando. Eram pessoas que naquela época não conseguiam falar nem com o Vigário e ali conversavam com o Cardeal quase Papa. Quanta felicidade você trazia para aquelas famílias migrantes da seca, faminta de sonhos e esperança da qual você alimentava como pastor e profeta da Teologia da Libertação, resgatando o Cristo que veio em vida para nos libertar.
Dom, lembras as reuniões da Forania, dos confrontos acirrados entre leigos e padres que não aceitavam a orientação libertadora da Igreja, onde tinha padres que trazia seus discípulos pra nos chamar de comunistas e você ficava parecendo um arco-íris mudando de cor e falava sempre com muita firmeza em defesa da Igreja do Cristo Libertador, do Cristo que não dá o peixe, mas que ensina as pessoas a pescar.
Essas mesmas cenas se repetiam nas Assembléias Arquidiocesana de Fortaleza, na década de 80, onde camponeses/as, trabalhadores/as rurais e desempregados/as se encontravam na mesma fé cristã aprendida nas Comunidades Eclesiais de Base – CEBs, muitas vezes perseguidas pelos vigários e fortalecidas na palavra e força do Arcebispo Aloísio Lorscheider. Assembléias que não se conseguia o consenso, nem com a franqueza da sua palavra, era uma luta de poder disputada na votação.
Como era bom aqueles momentos acirrados entre a Igreja conservadora e a Igreja libertadora, lá todos estavam juntos no mesmo palanque, com o mesmo direito de voz e voto, ali, estávamos exercitando a democracia, a participação, a disputa de poder. Como aprendemos nessa escola da vida, administrada por você, sem o uso da hierarquia, buscando sempre o convencimento, a compreensão, o entendimento sobre os ideais cristãos libertadores.
Ainda era tempo de Ditadura Militar e não conhecíamos os instrumentos democráticos de participação e foi você que nos proporcionou esse espaço, abrindo as portas da Diocese para a participação dos pobres. Foi assim, no apoio a luta por reforma agrária e urbana defendendo as ocupações de terra, vendo a propriedade privada, não como direito, mas como uma hipoteca social. Foi assim, durante cinco anos de seca (1979 a 1984) quando os camponeses ocuparam Fortaleza em busca de alimento, moradia e trabalho, quando organizou-se a Jornada de Luta de Contra a Fome, quando foi necessário acampar em frente ao Cambeba e fazer greve de fome diante da intransigência do Governador Tasso Jereissat, reprimindo o movimento organizado com polícia, em vez de atender suas necessidades.
Dom, foi você que me fez deixar de ser ateu, encontrei na sua espiritualidade e nas suas ações, o Deus que acolhe, que liberta, que é amigo, o Deus do amor, da justiça e da fraternidade. Um dia conversamos sobre isso, eu, você e a Lúcia minha companheira, quando vínhamos juntos no carro de Pacajus a Fortaleza, pegamos uma carona e você era quem dirigia. São essas coisas que lhe torna imortal e eterno no céu e na terra. Que me permite essa intimidade de conversarmos de eu pra você. De saber que estais reunido com os companheiros e companheiras da mesma caminhada que seguiram antes pra eternidade.
Hoje é Natal de 2007, Deus esteja conosco. Amém, aleluia, axé.

Leonardo Sampaio
Educador Popular
25/12/2007

PÓLO CULTURAL RACHEL DE QUEIROZ



MEMÓRIA

Conheci a casa da escritora Rachel de Queiroz, na Cidade de Fortaleza, em 1966, era o Sítio Pici do Dr. Daniel de Queiroz pai da escritora, era lá que como adolescente continuava minha vida rural caçando, pescando e comendo frutas.
No final dos anos 70, foi feito o loteamento do Sítio Pici e a Imobiliária sensível ao patrimônio cultural da Cidade, deixou intacta aquela casa, porque foi lá onde a escritora Rachel de Queiroz iniciou os inscritos do Livro O Quinze.
Em 1983, as Comunidades Eclesiais de Base – CBEs, do Pici, na Paróquia do Henrique Jorge, levaram ao conhecimento do prefeito César Cal`s Neto através de documento, solicitando o tombamento da Casa e a construção de equipamentos culturais e esportivos nas áreas públicas e espaços vazios disponíveis ao redor da casa, que incluía a área institucional do loteamento.
Os anos passaram sem resposta e em 1986, novamente retomamos a discussão com a Administração Popular, da então Prefeita Maria Luiza Fontinele e essa em 1987, fez um decreto de desapropriação da Casa. No entanto lembro quando chegou às minhas mãos um ofício do Loiola, Superintendente da SUMOV, falando sobre o valor da desapropriação e solicitando que fizéssemos pleito junto à Prefeita sobre aqueles valores para a prefeitura pudesse efetivar o projeto de intervenção na área. As dificuldade eram tantas naquela gestão que o mandato terminou e o pagamento da indenização não foi efetivado, nem a gestão seguinte de Ciro Gomes prosperou na realização do projeto.
Em 1994, através da Associação de Organizadores Sociais e Serviços – AMORA levou o projeto para a Secretaria de Cultura do Estado do Ceará – SECUT no mandato do Paulo Linhares e do Gov. Tasso Jereissate solicitando o tombamento da Casa Rachel de Queiroz, para ser usada como Biblioteca Pública, formação cultural e no entorno a construção do Pólo Cultural Rachel de Queiroz. A SECUT na época encaminhou uma equipe técnica do Patrimônio Histórico do Ceará, para analisar a possibilidade de tombamento e os técnicos avaliaram que devido algumas alterações na arquitetura original do prédio, não caberia mais tombamento e sim desapropriação por parte da Prefeitura.
Diante dessa orientação dada apenas oralmente pelos técnicos do Patrimônio Histórico do Ceará, em 1995 a AMORA continuou a luta e reformulou nova idéia para o projeto, que seria a construção do PÓLO CULTURAL RACHEL DE QUEIROZ em toda a extensão do Riacho Cachoeirinha, desde o João XXIII, Jóquei Clube, Henrique Jorge, Pici, Autran Nunes e Antônio Bezerra até o Rio Maranguapinho.
Desta vez, o pleito foi entregue à Prefeitura de Fortaleza, no mandato do Dr. Juraci Magalhães, que através do Secretário da Regional III, Dr. Petrônio, convocou a AMORA para ir in loco conhecer a área solicitada para intervenção desse projeto. Marcou-se a data e uma comissão formada pelo Presidente da AMORA Antônio Carlos Nascimento, Leonardo Sampaio, o arquiteto José Sales e Dr. Petrônio circulou toda a área, desde a Av. Parcifal Barroso, Campus do Pici-UFC, o Riacho Alagadiço, a Casa da Rachel de Queiroz, o Riacho Cachoeirinha e o encontro dos dois Riachos entre Antônio Bezerra e Autran Nunes. Na ocasião o arquiteto José Sales afirmava que estava elaborando o projeto Parque Ecológico no Riacho Alagadiço que vinha desde o Açude João Lopes até a Av. Perimetral entre a UFC - Campus do Pici e a Fábrica Cione no Antônio Bezerra. Aí o Secretário solicitou que o projeto fosse estendido para todo o percurso visitado. Após essa visita o Arquiteto José Sales ampliou o projeto e deu o nome de Parque Ecológico Rachel de Queiroz, absorvendo as idéias da AMORA de incluir espaços verdes, esporte, lazer e cultura. Mais o projeto gorou.
Em 2005, com o chamado da administração da Prefeita Luiziane Lins, para levarmos nossas propostas ao Orçamento Participativo e o Plano Diretor fomos lá, reanimar a idéia do projeto do POLO CULTURAL RACHEL DE QUEIROZ. A proposta do Pólo Cultural ficou entre as mais votadas no Orçamento Participativo (OP) de Fortaleza.
Em 2006, na assembléia do OP retomamos a proposta e posteriormente a AMORA e o Espaço Cultural Frei Tito de Alencar - ESCUTA formularam através de protocolo na SER III, documento delimitando os espaços e especificando os equipamentos que deveriam constar se caso fosse elaborado um novo projeto, que implica em: uma Biblioteca Pública na Casa Rachel de Queiroz e no entorno a construção de Anfiteatro, Quadras de Esporte, Cinema, Box para artesanato, Salão para exposições de artes, Auditório e um Quadrilhódomo (para realização de festivais de quadrilhas juninas da Cidade), podendo ser adaptado para outros eventos culturais em períodos além do junino.
Para tristeza nossa, na área do terreno público que fica no entorno da Casa, foram construídos por particulares nove lojas com duplex para alugar e ainda aterrando as margens do Riacho onde era o Açude do Sítio Pici, pertencente ao Daniel de Queiroz, lugar onde ela se inspirava para escrever a obra sobre a seca.
Essa história aqui relatada é pra justificar o quanto estas administrações tratam com desprezo, esse patrimônio histórico da Cidade que poderia ser de atração turística e de embelezamento, proporcionando qualidade de vida a seus habitantes. Uma intervenção urbanística desse porte seria o maior benefício feito nesta cidade, principalmente quando se trata de uma periferia onde tem a maior densidade populacional, sufocada sem espaço para manifestar suas potencialidades esportivas, culturais e de lazer.
Porém, nessa “administração bela” tem sido chocante o tratamento dado diante da agressividade de obras irregulares dentro desse patrimônio. As denúncias escritas levadas a SER III e ao próprio Gabinete da Prefeita, não impedem das obras irregulares avançarem como é o caso das lojas construídas em terreno do município que já estão até alugadas. Consideramos isso um fato grave, até porque precisamos saber como estas lojas são inauguradas se a Prefeitura tem que dar alvará e esse alvará exige o IPTU, além disso, como o terreno fica as margens do Riacho Cachoeirinha, precisaria de licença da Semam, Semace e até do CREA. Mas estas obras foram feitas sem nenhuma placa de licenciamento, mesmo ficando em uma Rua bem movimentada, a Mons. Hipólito Brasil, 980.
Chamamos atenção agora do Ministério Público para tomar alguma medida, inclusive fiscalizar os fiscais, porque o Secretário disse que isso acontece porque eles são corruptos.
Essa é uma história de antes e de agora um pouco de sistematização da memória da beleza dessa luta, pelo embelezamento dos nossos bairros da "Fortaleza Bela". É uma luta que nunca será abandonada por seus moradores, mesmo desprezada por seus administradores.
A nossa bandeira de hoje, em 2007, deverá ser de exigir que a Prefeita, os Senadores, Deputados e Vereadores negociem com o governo Lula colocando como prioridade de recursos para esta obra. Que ela seja inclusa no PAC para 2008.

Leonardo Sampaio
Educado Popular – Cel: 9111-8731
E-mail: leonardosampaio5@yahoo.com.br
Publicado no Site: www.inventarioambientalfortaleza.blogspot.com

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

O INVERNO E O VAQUEIRO

Os campos se alastram pelos os sertões,
As matas virgens desaparecem,
Ao longo das nossas vistas,
Já vemos pastagens pro gado.

Na extensão, de léguas e mais léguas,
Avistamos os campos livres,
Onde o gado no inverno é solto,
Para comer a rama nova que nasce.

E nas grandes fazendas,
Se reúnem a vaqueirama,
Para tangerem o gado,
Pra roça e para catinga,
Levando nos alfogens,
A boa fartura de queijo,
Farinha, carne assada e rapadura.

O clima é de alegria,
No meio da vaqueirama,
Onde rola muita união,
Esperança e solidariedade,
É riso e prosa pra todo lado.

Na hora de trabalhar,
Todos vão para o curral,
Pra conhecer a boiada,
Ferrar e por o chocalho.

Com o sussurro dos pássaros,
E a beleza verde da rama,
Saem pelos caminhos,
Em rumo a mata virgem.

Os chocalhos vão entoando,
Com o balanço dos badalos,
O canto do vaqueiro,
E o aboio que encanta,
A filha do fazendeiro.

Os cavalos e burros,
São todos enfeitados,
Com belos arreios de couro,
Feitos pelo o artesão,
Com todo capricho na mão,
Fazendo com que o animal,
Pouse de bonitão.

Chegando na grande mata,
O gado fazendo a festa,
Se alegra comendo a rama,
Urgindo e frigindo a testa.

Os vaqueiros se despedem,
Marcando a data da volta,
Pra quando o gado estiver gordo,
Folgoso e conhecendo a terra.

Aí é que a coisa pega,
Pois o boi não quer voltar,
Quando ver gente se assusta,
Partindo pra outro lugar.

O vaqueiro experiente,
Traz com ele um cachorrinho,
Para acompanhar o boi,
Enquanto ele segue o rastro,
Montado em cavalo ligeiro,
Vai encostando no bicho,
Colando no seu traseiro,
Enrolando o rabo na mão,
Até dominar no chão,
Ou no tronco do pau pereiro.