segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Não precisa profeta nem profecia


Leonardo Sampaio

Todo brasileiro quer
Que o país seja melhor
Seja um Brasil soberano
Pra competir com o maior
Desenvolver sua riqueza
Tirar gente da pobreza
Com voz e vez pra o menor.

Esse é o país sonhado,
Mas eis que infelizmente
O presidente eleito
Defende dente por dente
Com um regime fascista
E de linha neonazista
Com violência ascendente.

Não precisa de profeta
Muito menos profecia
Para saber do sofrimento
E também da agonia
Que a pobreza vai passar
E sua vida atrasar
Com o governo de tirania.

Pois ao longo de sua vida
Pregou sempre a violência
Descriminou as mulheres
Do nazismo é sua essência
Persegue negros e LGBT
Incrimina até o PT
Nem do índio tem condolência.

O ódio virou bandeira
Na campanha eleitoral
E encontrou muitos adeptos
Com mentira fenomenal
Tornou estelionatário
Pegou eleitor otário
Confundiu o bem com o mal.

Será um governo dos ricos
Servindo ao capital
Acumulará riquezas
É traíra internacional
Os pobres ficam mais pobres
E os ricos ficam mais nobres
No modo neoliberal.

A equipe está formada
Afastada do social
Que é vista como despesa
Pela classe empresarial
Geradora de pobreza
Pelo acúmulo de riqueza
Do mercado e industrial.

Os poderes dominantes
Banqueiros e industriais
Juntos com agronegócio
Sustentados por generais
E os mercados financeiros
Vão levar os brasileiros
A sufocos infernais.

Tudo isso foi previsto
Por comando americano
Desde o golpe contra a Dilma
Que já fez parte do plano
Transferir as estatais
Para outros capitais
E o Brasil entrar no cano.

Perde-se soberania
Enfraquece o Estado
Fortalece o empresariado
Mais produto importado
Gerando mais desemprego
Pobres perdem o sossego
Com os direitos cortado.

Essa farsa foi montada
Faceando o cristianismo
Enganando muita gente
Utilizando o fascismo
Com deus acima de tudo
E parte do povo mudo
Sonhando com o egoísmo.

Isso não é uma previsão
É o que está decretado
Terá muita repressão
Comandada pelo Estado
Com regime de exceção
Haverá perseguição
Contra o povo organizado.

Direitos só para eles
Será a única certeza
Para pobre só chicote
Falam isso com clareza
Mas quem votou não acredita
Em suas palavras antes dita
Que detesta a pobreza.

Pobre suja a natureza
Chama-os de vagabundo
As pessoas que não tem nada
Lixo humano do mundo
É assim que são tratados
E a todo tempo empurrados
E visto como imundo.

É um povo sem dinheiro
E por tanto não consome
Dá prejuízo ao Estado,
É gente que passa fome
Trás gasto pra educação
Pra saúde não é exceção
Não tem prestigio nem nome.

Em todo Estado burguês
Pobre é descriminado
Sofre toda repressão
Chega a ser eliminado
E em tempo de ditadura
Fazem até varredura
Por não estar no mercado.

O pobre que vota em rico
Não percebe que a pobreza
É fruto da exploração
Chega até a ter certeza
Que o rico vai lhe salvar
E vota pra lhe agradar
Ou até pela beleza.

E agora vem a chibata
Eles voltaram ao poder
Com toda a força que tem
E o pobre vai se fuder,
Perdendo todo direito
Não tem nada que dê jeito
Para ele se defender.

Daí que vem o conformismo
O pobre perde a esperança
Mas acredita que Deus vem
Essa é a única crença
Que virá o salvador
Para eliminar sua dor
E na morte sua presença.

05/12/2018



quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Ocupação do Planalto do Pici

Leonardo Sampaio

         Como escritor e memorialista apresento um pouco da história de uma parte da periferia de Fortaleza-Ceará. A Base Velha, como era popularmente conhecida na década de 1980, foi ocupada três vezes por pessoas aleatórias do bairro Jóquei Clube, com certo espontaneísmo, pois não havia uma organização comunitária com planejamento para que desse certo, por isso eram expulsas pela Polícia Federal, já que o terreno era de controle da União. Foi uma concessão dada pelo Governo Federal para a Fundação Rockefeller americana construir a Base Aérea para servir de apoio dos Americanos na Segunda Guerra Mundial. Popularmente ficou chamada de Base dos Americanos. 

Em 1986, na gestão da ex-prefeita Maria Luíza (PT), fui diretor do Centro Social Urbano César Cals, conhecido popularmente apenas pela sigla “CSU”.  A Base Velha servia de “desova”: grupos de extermínio jogavam corpos lá, dentro do mato. Então reuni os times de futebol da área e criamos a Liga Esportiva do Pici e resolvemos desmatar a Base Velha construindo Campos de Futebol consegui com a prefeitura dois tratores e em pouco tempo tínhamos 18 campos feitos, mais quatro dentro do Campus da UFC já existentes e logo foi criado o Campeonato da Liga, que se tornou um atrativo e todos os domingos a Base Velha era lotada de torcedores e comércio ambulante.

Em 1987, passei a ser Secretário de Habitação de Fortaleza e trouxe para as Comunidades do Pici (João Arruda) e Papoco o Projeto de recuperação de casas. Todas as casas de taipo nas favelas do Pici e Papoco foram construídas de tijolo, em regime de mutirão.

Em 1990, chegou no Pici o Projeto Prorenda da GTZ alemã, que eu havia articulado em 1987, com a Prefeita Maria Luiza e o governo da Alemanha, numa parceria com o Gov. do Estado, a Prefeitura de Fortaleza e a Comunidade local, sendo levado também para os bairros: Couto Fernandes, Pirambu e Conjunto Palmeiras.

Com a efervescência da luta por moradia, que articulei junto com a União das Comunidades da Grande Fortaleza e a União das Mulheres Cearenses, desencadearam muitas ocupações de terra em toda a Cidade, pois havia um programa contra a especulação imobiliária e por moradia popular.

Nesse período houve muita repressão policial em toda a Cidade comandada pelo Secretário de Segurança Pública do Estado do Ceará, Moroni Torgan. No Pici os despejos foram demasiadamente violentos por parte da polícia. Os despejos que houveram na Comunidade do Feijão, próximo ao Colégio Júlia Giffonni, foram parar na Delegacia do 10º Distrito e os ocupantes resolveram invadir o CSU César Cals e ficaram abrigados lá por algum tempo, até que a prefeitura cadastrasse cada família. D. Marina e D. Maria Boneca (Mãe do cantor Naldo José) eram as lideranças. Outro despejo foi ao lado da Favela da Fumaça onde hoje é um conjunto habitacional. Lá a liderança era a Lucimar, que sofreu repressão policial, mas colocou literalmente o dono do terreno pra correr, com um facão na mão. Estes fatos foram registrados em matérias de jornais da época, inclusive fotos da ocupação.

Com a onda de ocupações desordenadas, o Movimento dos Sem Teto e a União das Comunidades da Grande Fortaleza cria a estratégia de ocupar grandes áreas de terra em toda a Cidade e a Irmã Mona que fazia parte  das reuniões chegou a me convidar para uma reunião no Salão ao lado da Capela da Penha, na Bela Vista, para programar a ocupação da Base Velha. Fui junto com a Lúcia, minha companheira. Foi dessa luta que surgiu a ocupação do que é hoje o Planalto Pici.

Em 1989, o Prefeito era Ciro Gomes (PSDB), que se manifestou em defesa dos proprietários de terra e junto com o Governador Tasso Jereissati (PSDB) e Moroni Torgan (PFL, ex-Arena e DEM) comandaram uma grande repressão policial contra os ocupantes de terra. Várias pessoas foram espancadas com cassetetes, algumas tiveram fraturas nas costelas, nos braços e clavículas.  Foi um massacre terrível contra os pobres que queriam apenas um pedaço de terra para morar. A reflexão bíblica era feita pelas Comunidades Eclesiais de Bases – CEBs, do livro do Êxodo em busca da terra prometida.

As autoridades governamentais em vez de resolverem o problema da moradia, passaram a me perseguir como responsável pelas ocupações. Fui chamado pelo Secretário de Desenvolvimento Social e o comandante da Polícia Militar porque souberam que Leonardo era quem comandava as ocupações e queriam me intimidar. Na ocasião da reunião com eles, responsabilizei o Estado pelo massacre contra as pessoas pobres, indefesas que queriam um lugar para morar. Na verdade estive presente em muitas ocupações orientando que deveriam buscar o Governo ou a prefeitura para regularizar a terra desapropriando, se fosse particular em caso. O que fiz quando fui Secretário de habitação na Prefeitura.  

Em 1990, o Governador era Ciro Gomes (PSDB) e quando os Sem Teto chegaram organizados ocupando grandes terrenos ociosos, como o Aírton Senna, São Bernardo e a Base Velha, ele recuou porque organizado passou a cobrar regularização fundiária e urbanização das áreas ocupadas, como era o caso da ocupação da Base Velha Pici, em que a Associação de Organizadores Sociais e Serviços – AMORA, foi convidada pelo Estado por meio do Centro Comunitário Mirian Mota para ser a Entidade representativa da ocupação, a AMORA respondeu que seria melhor ser criado uma Entidade da própria ocupação. Foi aí que chegou a Toinha, vinda da Pastoral da Saúde e a Irmã Mona orientou-a a criar uma Associação de Moradores, daí veio a criação da Associação de Moradores do Campus do Pici – Amocap, que foi fundamental para dar continuidade a todo esse processo de organização da ocupação, definindo o tamanho dos lotes, a largura das ruas e fazendo o cadastramento de todas as famílias que ali iam chegando.

Então, todas as conquistas dependeram das organizações populares, nada chegou por boa vontade dos governantes e sim pelo luta do povo, por isso que chegou o saneamento básico no Planalto do Pici pra ser o que é hoje.

Precisa ficar claro que não foi o Ciro Gomes que deu o terreno, isso é falso, o que ele fez foi o saneamento básico, esgoto, água e calçamento. Que era o que o Movimento popular cobrava do governo.

O Pici agora tem um novo avanço, que é a criação por meio de Decreto da Prefeitura, da ZEIS - Zona Especial de Interesse Social do Pici, para a regularização fundiária e planejamento urbano. A luta continua.

Esses escritos são para registrar essa memória e servir de estudos e pesquisas.

 

06/10/2018


domingo, 23 de setembro de 2018

Ocupa casa Frei Tito


Leonardo Sampaio

Uma casa abandonada
No centro de Fortaleza
Na Rua Rodrigues Junior
Onde Frei Tito nasceu
Bem próximo a Aldeota
Foi lá que Tito cresceu
Jogando bola na rua
Tocando seu violão
Pois eram onze irmãos
Mais uma tia o pai e a mãe
Eram quatorze pessoas
Viviam harmonicamente
Numa pequena casinha
Socializavam tarefas
E todos participavam
Era família de fé
Num regime democrático
De prática socialista
Com partilha e bem comum.

Dona Laura era a mãe
Ildefonso era o pai
Eram pessoas bem humildes
Os filhos iam crescendo
Cada um seguiu seu rumo
O João virou comunista
A Nildes educadora
Outras eram domésticas
Alguns funcionários públicos
E o Tito religioso
Seguiu a causa dos pobres
Com Jesus de Nazaré
Por isso foi perseguido
No Regime Militar
Foi um grande alvoroço
Na família Alencar.
Tito preso e torturado
Na Ditadura Militar
Queria democracia
Defendia o evangelho
E a partilha de bens
Numa sociedade justa
Chamavam-no comunista
Contra o capitalismo
Por isso foi condenado
Foi preso e exilado.

Lá nas terras estrangeiras
Já sentia muita saudade
Queria estar com seu povo
Defendendo a liberdade
E um mundo de igualdade
Com muita fraternidade
Muito amor no coração
Paixão e misericórdia
Pra todos serem irmãos.

Era meigo e amoroso
Só queria, o bem do povo
Assim se manifestou
Escreveu carta e poesia
Sobre o amor que tinha
Pelo povo e sua terra.

Por não sentir mais retorno
Ficou um tanto alucinado
Em tudo via fantasma
Percebia torturadores
Lhe seguindo a todo tempo
Tiraram-lhe o âmago
Com tanta alucinação
Resolveu tirar a vida
Enforcado numa árvore.

Virou mártir dos torturados
E dos direitos humanos
Assim é reconhecido
Por todos que o admiram
E por isso não é esquecido.
Até a casa onde nasceu
Queremos preservação
Para guardar a memória
E assim manter sua história.

Mas a casa foi encontrada
Destruída e abandonada
E uma cristã aguerrida
Ao ver uma placa vende-se
Conhecia a vida de Tito
E que ali ele nascera
Correu atrás de amigos
Pra preservação da casa
E o patrimônio histórico
Para que fosse tombada
E assim aconteceu,
Mas ficou descuidada
Até no dia dez de agosto
Do ano dois mil e dezoito
Quando a Escola Bíblica
Frei Tito de Alencar
Se juntou com o Escuta
Que é o Espaço Cultural
Que homenageia o Frei
Prepararam celebração
E após entraram na casa
Arrancando uma grade
Viu-se o estrago que tava
Decidiu-se ficar dentro
Pois a casa era tombada
E ficou ali desprezada
Não houve o menor cuidado
Nem do dono nem prefeitura
Com vários vãos destruídos
Outras paredes quebradas
Todas as portas arrancadas
Pisos e tetos alterados
Gatos de água e energia
E com tudo desprezado.

Um documento foi lido
Levantando a bandeira
Pela desapropriação
Para criar o memorial
Do Frei Tito de Alencar
E dos demais torturados
Nas terras do Ceará.

Mas no dia onze de agosto
Aparece um dito dono
Era pai filho e capanga
Com murros e ponta pé
Expulsando os ocupantes
Fazendo muita arruaça
Houve gritos e ameaças
Despejo dos objetos
Todos jogados na rua
Mas os jovens lá presentes
Resistem sem abrir mão
Acusam o proprietário
Do abandono da casa
Mesmo ela sendo tombada
Por isso sua obrigação
É cuidar do patrimônio
Assim os jovens diziam
Articularam reforço
Foi chegando mais apoio
De repente muita gente
Advogados e padres
E mais outras lideranças
Foram pressionando o dono
Até que ele se afastou
Sem permitir ficar dentro
A calçada foi ocupada
Na frente do patrimônio
Até que a prefeitura
Faça a desapropriação.

O CEBI logo apoiou
E as Pastorais Sociais
As CEBs e organismos
Jovens da PJMP e PJ
Mais o Centro de Pastoral
Padres, Freiras e Leigos
E mais outras lideranças
Chegaram juntos no apoio
Fortalecendo a luta
E também a resistência
A juventude aguerrida.

No dia doze de agosto
Numa audiência pública
Feita na Secutfor
Entregou-se documento
Em que foi Protocolado
Com as reivindicações
Da Ocupa casa Frei Tito.

Os dias foram passando
Sem ter resposta concreta
O movimento resolve
Entrar na casa de novo
E em dezessete de agosto
Em outra celebração
O movimento retorna
E ocupa outra vez.
Já no outro dia seguinte
O suposto dono aparece
Com filhos e um policial
Usando arma em punho
Apontando para os jovens
Virou clima de terror
Bate boca e resistência
E muita pancadaria
Os jovens foram empurrados
Botaram todos pra fora
Foram chegando os apoios
Lideranças e advogados
Religiosos e os leigos
Entraram de casa a dentro
E a polícia se fez presente
Tentando apaziguar
E os donos intransigentes
Era muita discussão
De um lado e do outro
Até ir pra delegacia
Onde foi feito acordo
Com a casa ocupada
Em até sessenta dias.

Foi só mais um passo dado
Pra amenizar o conflito
Até o Prefeito desapropriar
Foi essa a meta fincada
Sem ter nenhum retrocesso
Da Ocupa casa Frei Tito.

As cobranças continuaram
Pra se chegar ao Prefeito
Adesões por todo lado
Até a família do Tito
Chegou a manifestar-se
Compreendendo que era a vez
De se chegar ao Prefeito
E a solução encontrar
Pois a muitos anos tentam
Sem nunca terem resposta.

Nas noites enluaradas
Ou no brilho das estrelas
E no sol abrasador
Os jovens vão resistindo
Ficam na casa dia e noite
Estudando e trabalhando
São meninas e meninos
Revelando a esperança
Que esse mundo tem jeito
Quando junta fé e vida
Em busca de um ideal
E Tito é inspiração.

São as noites mal dormidas
E os dias muito cansativos
Aguardando que o Prefeito
Um tal de Roberto Claudio
Dê resposta positiva
De desapropriar a casa
E implantar o memorial
Como bem patrimonial
Da Cidade e do mundo
Pelo fim das ditaduras
E pelos direitos humanos.

Cada dia tem coisa nova
São oficinas de croché
Cortes de cabelo e bordado
Filmes, jogos, teatro e músicas
Ofícios, rezas e cânticos
Como expressão de fé
No Cristo libertador
O Jesus de Nazaré
Homem forte e destemido
Que mesmo temendo a morte
Deu seu exemplo de vida
Sem temer aos poderosos
Mesmo sendo torturado
Preso e crucificado,
“Eles não sabem o que fazem”
Falou pregado na cruz.
Esse é o Deus desses jovens
Da Ocupa casa Frei Tito
Dando exemplo de vida
Com responsabilidade
Em defesa da justiça
Do direito e o bem viver.

Por isso não abrem mão
Querem a restauração
Dessa casa do Frei Tito
Para que a memória
Seja sempre preservada.

Já no dia dez de setembro
Nova notícia chegou
Da família de Frei Tito
Que o prefeito recebeu
Reuniu em seu Gabinete
E lá se comprometeu
De desapropriar a casa
Seguindo um calendário
De setembro a dezembro
Do ano dois mil e dezoito
Fazer a restauração
E em janeiro do ano novo
De dois mil e dezenove
Fazer inauguração.

Os passos a serem dados
Foi assinar três decretos
E o primeiro já foi feito
Em quatorze de setembro
No aniversário de Tito
E o Movimento ocupa
Fez a semana de festa
A família foi recordar
A casinha onde ele nasceu
Foi um momento de emoção
Entraram de casa a dentro
Contando cada detalhe
De como ali viviam
E o cantinho onde ele nasceu
Com a ajuda da parteira
Sendo o último da família.
E por lá permaneceram
Assistiram os palhaços
E muito se divertiram
São pessoas bastante idosas
E muito acolhedoras
Eram dois irmãos e a irmã
Nildes, Ildefonso e João.
Vieram pra comemorar
A promessa do prefeito
E também congratular
Com a Ocupa casa Frei Tito
Por ter feito aquele ato
De ocupação da casa
Correndo todos os riscos
Como foram as agressões.

Agora falta o concreto
Que o prefeito assumiu
Que é a desapropriação
Porque o Decreto não saiu
Pra efetivar a promessa
Com a criação do Conselho
Que ficará responsável
Pra instalar o memorial
Que é o terceiro decreto.

A Ocupa casa Frei Tito
Continua dentro da casa
Mantendo-se vigilante
Acompanhando os passos
Do Prefeito Roberto Cláudio
Das promessas assumidas
No encontro com a família.

O Movimento agradece
A todos que visitaram
E aos que colaboraram
Os homens e as mulheres
Todas famílias vizinhas
E as crianças do entorno
Da Rua Rodrigues Junior
Sempre presentes em tudo
Que ali foi promovido.
Pedimos também desculpas
Por transtorno ocorridos
Tirando o sossego da Rua.

Com a benção do divino
E todos deuses sagrados
Sou grato a todos/as vocês
Por cumprir essa missão
Que a mim foi delegada
De coordenar essa ação
Junto à tanta gente boa
Em nome da liberdade
Do direito e da justiça
E muita fraternidade.

A vitória é de todos e todas.
Frei Tito Vive.

23 de setembro de 2018


História de Frei Tito de Alencar




HISTÓRIA DE

FREI TITO DE ALENCAR LIMA


O MÁRTIR DOS DIREITOS HUMANOS

Autor: Leonardo Sampaio


 Agosto de 2018

Literatura de Cordel

HISTÓRIA DE FREI TITO

Recorro às divindades
Para aqui me expressar
Sobre a vida do cearense
Frei Tito de Alencar
Que viveu na sua infância
E também adolescência
Nas terras do Ceará.

Na Cidade Fortaleza
Foi o lugar onde nasceu
Em quatorze de setembro
E no Centro ele cresceu
Na Rua Rodrigues Junior
E estudou no Liceu.

É filho de Ildefonso
E Laura Lima Alencar
Foi o último dos onze filhos
Que gostava de rezar
Família de muita fé
Como a de Nazaré
Para o amor preservar.

Na Igreja do Cristo Rei
Teve missão apostólica
Na luta estudantil
Junto a Igreja católica
E no Liceu do Ceará
A batalha foi arrocha
Vendo o mundo com outra ótica.

Frei Tito ainda jovem
Segue a carreira religiosa
Foi militante da JEC
Com leitura primorosa
E o Jesus libertador
Foi ele o inspirador
Para a missão corajosa.

Seguiu pelo país a fora
Para cumprir a missão
Passou pelo Pernambuco
E em Minas foi outro chão
E São Paulo foi paradeiro
Onde se tornou o primeiro
A sofrer perseguição.

Pois em trinta e um de março
Teve um Golpe Militar
Com repressão no Brasil
Pra liberdade acabar
Usando as forças armadas
Perseguem os camaradas
Pra ditadura implantar.

Já com a força das armas
Criaram leis infames
Prenderam as lideranças
Se reunir era enxame
Proibiam se organizar
A ordem era fuzilar
E o Brasil virou vexame.

Frei Tito com muita fé
Segue a peregrinação
Em nome da juventude
E sua representação
A União dos Estudantes
Pra vida seguir adiante
Sem temer a repressão.

O sonho vem da palavra
Da fé e da esperança
Com espiritualidade
E em Deus a confiança
Na construção de um reino
Tendo sua fé como treino
Pra preparar a mudança.

Dos sonhos e esperanças
E com amor no coração
Frei Tito aumenta a crença
Que só a organização
Construirá um mundo novo
Juntando todo o povo
Na luta por libertação.

Assim empenhou sua vida
Na busca da construção
De um mundo justo e fraterno
Levando à população
A palavra e a fé
Pra que todos finquem pé
Pra construir revolução.

A inspiração nasceu
Na palavra socialismo
Pensada pelo Karl Marx
Construindo o comunismo
Sociedade igualitária
Sem exploração proletária
E o fim do capitalismo.

Esse mundo ele encontrou
Na bíblia, com sua leitura,
Lendo o ato dos apóstolos
Vendo a sociedade pura
Onde todos plantavam
Do produto alimentavam
Com ética e postura.

Dessa maneira Frei Tito
Foi criando mais projeção
Com fé, luta e esperança,
E em Jesus a proteção
Mais o Espírito Santo
Acolhendo com seu manto
A defesa da nação.

Para ampliar a disputa
Foi pra luta estudantil
Fortalecendo a UNE
Pra tira-la do funil
Da Ditadura Militar
Com fé e oração guerrear
Pra libertar o Brasil.

Na caminhada encontrou
O guerreiro Marighuella
Militante da ALN
Numa guerrilha singela
Pra derrubar a ditadura
Milicos de linha dura,
E acabar com a balela.

Nessa batalha entraram
Simpatizantes e apoiadores
Entre eles Dominicanos
Militantes pregadores
Do Cristo Libertador
Indo contra o opressor
E de Jesus seguidores.

Foi na vida dominicana
Ao lado dos companheiros
Frei Fernando e Frei Betto
E mais outros brasileiros
Tendo Frei Ivo e Frei Osvaldo
Frei Fernando ao seu lado
Frei Giorgio e guerrilheiros.

Passeatas aconteceram
Pelas ruas em todo país
E estudantes arrojados
Gritando pra o infeliz
Fora milico e a ditadura
E pelo fim da censura
Para o povo ser feliz.

Nessa luta desigual
O capital se fortalece
Os estrangeiros invadem
E a ditadura endurece
Expulsa, prende e mata,
Nem a lei ela acata
E o regime enfurece.

Ricos ficando mais ricos
Só o pobre é quem padece
Por isso precisa unir
Se não a luta enfraquece
Frei Tito assim pregava
Era a forma que achava.
Pra ajudar a quem carece.

É guerra pra todo lado
Capitalismo crescendo
E o povo passando fome
O mundo ficou fervendo
Os EUA sem ética
Mais a União Soviética
E o povo fica sofrendo.

O mundo foi dominado
E o Brasil dividido
Entre forças econômicas 
Promovendo grande ruído
Por um lado a burguesia
Com mentira e heresia
E o pobre desunido.

Mesmo assim os estudantes
E também sindicalistas
Queriam a revolução
Para tirar os fascistas
Por meio da luta armada
Chamando os camaradas
Pra derrotar capitalistas.

Desse jeito aconteceu
A guerrilha brasileira
Era focos em todo canto
Com fraca arma caseira
Pra os fuzis enfrentar
Pensando no povo entrar
Mesmo de qualquer maneira.

Mas a coisa foi diferente
Os generais se armaram
Criaram o AI 5
E com armas matavam
Torturavam e prendiam
E a outros perseguiam
Expulsavam e exilavam.

Era tortura com choque
Batendo por todo lado
Pau de arara e arranca unha
Deixa o corpo maltratado
Com toda selvageria
Sofria-se essa agonia
Como Cristo crucificado.

Frei Tito passou por isso
Foi preso e torturado
Por defender o evangelho
E os pobres ao seu lado
Seguiu firme a sua fé
Acreditando em javé
E por Jesus alimentado.

No ano de sessenta e nove
Foi preso a primeira vez
No chamado DOI-CODI
Onde sentiu a estupidez
Da Operação Bandeirante
Com pratica arrogante
Usando a insensatez.

No presídio Tiradentes
Mauricio torturador
E o Benoni Albernaz
Capitães inquisidor
Em três dias ininterruptos
Tornaram-se bichos brutos
Com torturas e terror.

Aplicaram choque elétrico
Em seus órgãos genitais
Na língua e em todo corpo
Como ferozes animais
Serás quebrado por dentro
Falando o seu intento
E não esquecerás jamais.

Apanhou dos capitães
Pontapés no estômago
Queimaram todo seu corpo
Atingiram o seu âmago
O psíquico, a alma e a paz
Com o inferno de Albanaz
Inocularam seu imago.

E apesar dos cuidados
A tortura nele deixada
Rompera seu equilíbrio
E em sua mente fixada
Com profundas sequelas
Deixando todas mazelas
Em sua alma afixada.

No ano de setenta e três
Até mesmo no Convento
Na Província de Lyon
Não barrou seu intento
De dar o fim a sua vida
Por não apagar a ferida
E assim veio o advento.


O Mártir dos torturados
Da prisão foi exilado
Chegou a morar no Chile
Mas Allende foi derrubado,
E da Itália foi pra França
Levando na alma a esperança
De voltar pra o povo amado.

Na França lhe apareceu
Fantasma torturador
O delegado Fleury
Sendo o perseguidor
E Benoni o capitão
Parecia imagem do cão
Ao lembrar o inquisidor.

Não suportando o calvário
Que a tortura lhe implantou
Decidiu dá fim à vida
Quando mais não aguentou
Pelo pai foi ele recebido
E por todos acolhido
E o mundo o confortou.

Foi no dia 10 de agosto (1974)
Que na França aconteceu
Na Cidade de Lyon
Que Frei Tito morreu
Disse: “É melhor morrer
do que a vida perder”. 
Assim o céu o recebeu.

Do Céu veio à inspiração
O Espírito Santo soprou
Pra trazer Tito de volta
Pras terras onde morou
E assim veio o translado
E o seu corpo enterrado
E Fortaleza adorou.

Quem quiser conhecer mais
Essa história aqui contada
Batismo de Sangue é o filme
Da redação programada
Em que Frei Betto é o autor
E também o produtor
Da história implementada.

Agora eu me despeço
Lembrando noites escura
Lá pelo Rio de Janeiro
Com ideologia firme e dura
Da luta por liberdade
No campo e na cidade
Atravessei a ditadura.

OBSERVAÇÕES:
JEC – Juventude Estudantil Católica
UNE – União Nacional dos Estudantes
URSS – União das Repúblicas Socialista Soviética
EUA – Estados Unidos da América
ALN - Aliança Libertadora Nacional
14/09/1945 – Data de nascimento de Frei Tito
10/09/1974 – Data de morte de Frei Tito de Alencar Lima
31/03/1964 – Data do Golpe Civil Militar no Brasil

A Comunidade Eclesial de Base - Ceb Frei Tito de Alencar foi a primeira homenagem histórica comunitária ao Dominicano, e fica na Favela da Fumaça - Pici, Fortaleza 

Da CBE fundou-se o Espaço Cultural Frei Tito de Alencar - ESCUTA
Promovendo auto-estima para batalha continuar no meio dos pobres, com arte, cultura e educação popular, fazendo a transformação construída na luta, onde funciona a Escola Bíblica Frei Tito, por meio do Centro Ecumênico de Estudo Estudo BÍblico - CEBI

 Leonardo Furtado Sampaio, é Coordenador Administrativo do Espaço Cultural Frei Tito de Alencar – ESCUTA e também educador popular, militante das lutas sociais, escritor, pesquisador e memorista, da cultura popular, poeta, membro fundador da Academia Afrocearense de Letra - AAFROCEL, e sócio honorário da Academia de Letras dos Municípios do Ceará - ALMECE.