domingo, 1 de junho de 2014

MÃES DAS MÃES


Leonardo Sampaio

Mãe das mães
É a mãe terra, lugar sagrado dos povos indígenas,
É Maria Santíssima mãe de Jesus e rainha dos céus,
É Iemanjá mãe das águas e de todos os orixás
São elas, as mães que inspiram amor
Que fortalecem a espiritualidade
Que protegem a natureza e a humanidade
Que parem o mistério da vida
Que transmitem justiça e igualdade
Que sensibilizam o universo contra a maldade
Que trazem no peito o espírito de liberdade.
Na Casa de Cultura Poeta Juvenal Galeno

A inspiração poética surgiu na reunião da Associação Cearense de Escritores – ACE quando uma colega escritora falava sobre a mãe das mães e apresentava Nossa Senhora, aí me inquietei, escrevi sobre as outras mães que alimentam a fé, aí solicitei para quebrar o protocolo de inscrições e li.
O momento era de homenagem às mães e fiz isso na tentativa de quebrar o preconceito que existe na sociedade patriarcal de um Deus uno e ignora a existência de outros deuses em que as pessoas alimentam sua espiritualidade e sentem-se felizes.
31/05/2014 
 

domingo, 25 de maio de 2014

A CAATINGA, O ESPINHO E A ROSA

Leonardo Sampaio

Entre flores e espinhos
Nascem  filhos da caatinga
Como a flor do mandacaru
A cabaça ou moringa
Que guarda água pra beber
Na cuia ou na seringa.

Mas quando a chuva não vem
O liquido só é achado
No talo do xiquexique
E até água pro Batizado
É na coroa de frade
Que o líquido é encontrado.

A caatinga tem beleza
Em tempo de floração
O xiquexique e o mandacaru
Servem para ornamentação
E a folha da macambira
Faz-se a decoração.

A planta macaubeira
Tem fruto e tem espinho
Com o espinho marca o bordado
Com um traçado bem fininho
O fruto é mascado e quebrado
Pra se comer o coco pequenininho.

Assim é a geografia
Com toda essa vegetação
Chamada de caatinga
Que é no nordeste a região
Onde tem planta que seca
E com chuva vem floração.

Toda essa vegetação
Com plantas espinhosas
Sem sombra nem encosto
Mas tem belas flores e rosas
Que soltam o seu perfume
E a caatinga fica cheirosa.

25/05/2014

sábado, 17 de maio de 2014

O menino e o Lageiro


Leonardo Sampaio

Um menino muito travesso nasceu e viveu sua infância em um lugar chamado Gangorra, ele gostava de apreciar a natureza, os animais e o canto dos pássaros. A casa onde morava tinha uma vista muito ampla com coqueiros, serras, canaviais, engenhos e um Lageiro, lugar muito bonito e deslumbrante de se vê a natureza com um olhar infinito por trás das matas, raios coloridos entre nuvens que formam montanhas suspensas no ar, parecendo um paraíso coberto de véu, onde só há coisas boas pra se amar e viver em harmonia com a natureza e os deuses criadores do universo.

Outra beleza vista do Lajeiro que o menino apreciava era o raiar do dia quando sol nasce como uma esfera iluminada alumiando as gotas de orvalho que brilham nas folhas, dando vida à paisagem florida cheia de frutas e sementes que reproduzem às espécies vegetais e oferece um olhar verde que desaparece por trás das serras montanhosas por onde os raios solares começam a aparecer logo ao dia amanhecer.

No decorrer do dia, com o sol abrasador, as pedras esquentam e ao final da tarde quando o clima esfria, o Lageiro fica mais atraente ao olhar do menino que vê o sol se pôr com raios avermelhados, alaranjados e de tantas cores por entre nuvens e a paisagem da caatinga, serras e serrados que abrilhantam o ambiente até ao escurecer.

Às noites as estrelas aparecem, a Lua vai surgindo e as pedras arenosas do Lageiro vista de longe parece uma mancha branca no reflexo da noite que vai tornando o ambiente romântico e faz com que o menino olhe para o céu e veja o Cruzeiro do Sul, as Três Marias e a Estrela Dalva que aparece em meio a grandes constelações de planetas e meteoros que giram em torno da terra.

O Lageiro que o menino avista ao olhar pro universo é assim, romântico, mas ele não é só isso, ao vê-lo de perto, nas suas entranhas, ele trás as particularidades da paisagem de serrado com muitos espinhos, flores e frutos produzidos pela macambira, xiquexique, macambira, mandacaru, jurema e espinheiro que se entrelaçam entre o pau-ferro, jucá, timbaúba, angico, aroeira e o marmeleiro onde os pássaros gorjeiam e o soim pula de galho em galho e grita anunciando a presença do bicho homem, pedrador da flora e da fauna, que muitas vezes chega com baladeira, funda, badoque, arapuca, arataca ou espingarda para depredá-los.

Esse Lageiro que o menino passeou por dentro, é também um lugar sagrado que até entre os espinhos nasce a coroa de frade e segundo a crença Jesus, José e Maria andaram naquele solo, montado em seu Jumento pelos caminhos de pedras e espinhos como pode ser visto nas marcas de pegadas do rastro do animal e os pés descalço do menino Jesus, seu pai e sua mãe santíssima como é mostrado na lenda local.

É desse lugar dito sagrado que o menino escutava à meia noite a voz dos Penitentes cantando seus hinos ao pé de uma cruz fincada no topo do Lajeiro e dali saíam pelas estradas e chegavam no alpendre da casa do menino e o assustava, além de deixá-lo com medo ao perceber os homens se penitenciando com açoites no próprio corpo até sangrar para pagar os pecados e encontrar o caminho da salvação. O menino ouvia os benditos, até o dia 03 de maio, quando encerrava com a Festa da Santa Cruz.

Nos mistérios sagrados do Lajeiro passou ainda o dilúvio anunciado por Deus, quando o universo foi coberto por águas e naquela localidade, pode ser constatado através das pedras com fósseis de peixes, madeira e outros animais aquáticos que viveram por lá onde a barca de Noé fez sua travessia em toda a região do Cariri.
 

Ao falar em sagrado, um açude foi construído nos Lageiros pelo Padre Ibiapina que era um andante dos sertões cearenses em busca de amenizar os efeitos das secas e o sofrimento do povo e ao passar naquele lugar construiu um reservatório de água que tempos depois quebrou a parede e nunca foi recuperado, ficando o riacho formando Grotas nas pedras e acumulando água por algum tempo.

O simbolismo religioso do Lageiro é tão significativo que o Padre Duza construiu uma cruz de cimento e estabeleceu a missas da Santa Cruz, que se tornou uma atração turística religiosa e cultural nos dias 02 e 03 de maio.

As Grotas do Lageiro era um lugar onde o menino gostava de tomar banho em tempos de inverno logo depois das chuvas, quando as águas do riacho estava correndo e acumulando nas grotas ou cacimbinhas formadas nas pedras.

As Grotas tinham outra utilidade era quando o sol aparecia e as mulheres lavadeiras chegavam aproveitando a água pra lavar roupas e nas pedras estendiam pra secar, formando um senária de relação do humano com a paisagem da caatinga e o voo rasante do pássaro lavandeira embelezando mais o ambiente.

O menino andou ainda no pé do Lageiro, onde fica a Furna de Maria Viado, era uma loca na pedra, dentro do mato que serviu de esconderijo para uma família se esconder com medo da guerra e ali viveram por um período. Ao abandonarem o local, o ambiente passou a ser habitado por animais de diversas espécies, como morcego e outros bichos.

O menino foi embora daquele lugar e ao retornar depois de adulto encontrou o lugar desprezado, com erosões, lixo, queimadas, a cruz original com mais de 200 anos de existência estava sem braço e a vegetação natural de serrado desaparecendo por destruição de ações desumana do bicho homem.

Espera-se que Jesus Cristo retorne lá, puna os agressores do meio ambiente e faça um novo milagre, para que os meninos das novas gerações possam ter a satisfação de conhecer aquele lugar tão lindo e tão belo visto pelo menino da Gangorra.

17/05/2014

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Resumo do Livro: História das CEBs Frei Tito

O registro escrito da história de comunidades é sempre coisa rara de acontecer, até mesmo a história de Jesus Cristo foi escrita anos após sua morte, elas não morrem porque fica guardada na memória da comunidade e passa a ser contada oralmente de pessoa pra pessoa, seja em roda de conversa ou entre famílias. No Pici fui buscar essa oralidade na história da Fumaça e das CEBs Frei Tito que foi transformada em livro no ano de 1993 com o titulo: “Resgate Histórico das CEBs, na Comunidade Frei Tito de Alencar”. Inicialmente ele trás a história da Favela da Fumaça contada pelos primeiros moradores da localidade, é uma história curiosa por se relacionar com a cidade remontando as ocupações de terras em Fortaleza no inicio da década de 1960, mais precisamente em 1962, em que temos o conhecimento da marcha do Pirambu no mesmo ano. A ocupação da terra na Fumaça se deu por famílias negras migrantes da Região Centro Sul do interior do Ceará, que migraram para a Capital em busca de melhores condições de vida. 
O livro em outro momento mostra a chegada das Comunidades Eclesiais de Base – CEBs  na Favela da Fumaça na década de 1980, com um outro jeito de ser Igreja, apresentando uma profecia comprometida com a causa e a luta dos pobres a partir da Teologia da Libertação, vislumbrando uma fé engajada na busca da emancipação humana a partir dos pobres, tendo como base orientadora a vida dos primeiros cristãos, em que “todos trabalhavam produziam e dividiam de acorda com suas necessidades”(ats 14.12).
O livro revela ainda que a partir de uma fé contextualizada na história do povo, é possível construir uma nova história de lutas em busca da “terra prometida” que começa com Moises na África, lá no Egito, reunindo um grupo de pessoas escravizadas pra ir à luta e que na Favela da Fumaça, quando a profecia chegar com as CEBs, à luta reinicia com o mesmo povo afrodescendente que na sua ancestralidade foi escravizado e aqui retoma sua história a partir da fé com a leitura teológica formadora de opinião critica sobre realidade e reflete a partir do VER, JULGAR e AGIR que leva a construção de um novo processo de organização popular reunindo os sem tetos, sem terra, sem emprego, sem educação, sem saúde e tantos outros sens. Com isso as pessoas inventam e reinventam seus instrumentos de lutas e vão se engajando por meio do movimento popular, partidos político e começam a enfrentar o peleguismo comunitário, sindical, o conservadorismo religioso, político e a própria ditadura militar, na época.
A mensagem do livro é o encontro com as práticas transformadoras de mentes e ações que começam a incomodar a Igreja conservadora local e as instituições representativas da Ditadura Militar implantada no país, que se fazem presente na localidade com políticas assistencialistas amortecedora da indignação e promotora da acomodação com promessa de um céu tranqüilo e acolhedor para os que sofrem com a pobreza e a miséria. Esse trabalho era realizado na Igreja templo por agentes pastorais e o pároco e por técnicos da Fundação do Serviço Social da Prefeitura de Fortaleza, por meio do CSU César Cals, num confronto político ideológico e teológico segundo o livro.
SEGUNDA EDIÇÃO
Esse livro está com sua primeira edição esgotada e pretendo editar a segunda edição com atualizações históricas para reabastecer as bibliotecas das escolas públicas locais, particulares, comunitárias e demais interessados que queiram participar desse banquete literário com a história do povo e suas lutas populares, tendo o livro como fonte para saciar a fome de saberes e vivências comunitárias, culturais e de fé revolucionária.

A procura de editora.

Leonardo Sampaio
Escritor, poeta, educador e pesquisador popular
(85) 8501-0330
E-mail: leonardosampaio5@yahoo.com.br

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O FUNK e os rolezinhos

Leonardo Sampaio

O Funk Ostentação alimenta sonhos de riqueza pessoal e inspira a juventude negra que busca frequentar os shoppings como lugar de beleza e consumo dos produtos de marca, para se igualar a classe "A", como é cantado em poesia do Funk.
A fonte inspiradora desse Funk Ostentação começa nos Estados Unidos e Canadá e chega ao Brasil, com a grande força da ascensão de uma classe média de maioria negra que se formou no país nesses últimos dez anos e que é induzida ao consumo a partir das facilidades de créditos do mercado capitalista de ideologia excludente e individualista.
Acontece que para essa classe média negra, o único espaço de lazer e consumo que visualizam para ostentar os seus desejos e necessidades são os shoppings e na sua ancestralidade afro enquanto grupo étnico racial ele trás uma cultura da coletividade, da circularidade, da musicalidade e da expressão corporal como estilo de vida. Isso é visível nas diversas formas de expressões culturais como: o hip-hop, rap,  capoeira, a ciranda, a dança do coco, a roda de samba, a quebra do coco, a farinhada e tantas outras manifestações, são coisas que não tem como negar, estão em suas raízes e não podia ser diferente a busca de se articular para curtir juntos às belezas que estão à vista. No entanto, os shoppings foram feitos pra brancos, a presença de negros nunca foi bem vinda, conhecemos muitos depoimentos de pessoas negras que passaram por constrangimentos em ambientes ditos não seus e sabemos as expressões como são tratados.
O que os donos de shopping não perceberam ainda, é que essa classe média originária do negro e do índio no Brasil, é hoje a maior consumidora no país de produtos de marca, porque ela quer se ver como classe “A”, como gente bonita, reconhecida como morena e que muitas vezes vira loira pra amenizar o racismo e não ser chamada de negra ou negro de forma pejorativa, já que a expressão é simbolo de coisa ruim em tudo que se fala.

É preciso compreender que esse conjunto de coisas e sentimentos de pertença é a inspira os rolezinhos que buscam espaços para lazer, consumo, felicidade, qualidade de vida e dignidade que sempre lhes foi negado e mesmo sendo uma classe vista como subalterna pela cor da pele, mas é nos mecanismos de mercado do sistema capitalista  que se veem para manter a ostentação do luxo e da beleza que o branco sempre usou e no blog http://miscerratenses.blogspot.com.br/2014/01/funk-ostentacao-e-hip-hop-mas-o-hip-hop.html?spref=tw os textos e vídeos revelam a expressão e a linguagem vinda da favela instigando ao consumo da classe "A", como o ouro, carrões e figurino de marca como é ouvida no grito de guerra dessa juventude funqueira.  

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Rolezinho e a segregação racial

Leonardo Sampaio

O racismo no Brasil começa a tomar novas proporções no rumo da segregação e apartheid como estamos vendo em São Paulo com o tratamento dado aos jovens negros que buscam usar os espaços que foram criados para entretenimento e consumo da classe média branca, que são os shoppings.
Como podemos observar nesses últimos meses a classe empresarial, a justiça e o estado em São Paulo entendem que precisam afastar os "rolezinhos" dos shoppings para não "sujar" o ambiente com a pele negra como aconteceu com a visita de jovens negros ao shopping Iguatemi e outros em São Paulo, mesmo sendo um movimento apenas de ostentação, de consumo pelo chamado do sistema capitalista, mas aí vários jovens foram presos e estão com processos na justiça. São jovens negros que eles mesmos declararam na imprensa, "só queriam comprar produtos de marca, como um direito deles e nada mais". Eles são pessoas que trabalham ganham dinheiro e querem gastar em ambientes diferentes, agradáveis e bonitos. São as pessoas da nova classe média, ou pobre que passaram a ganhar seu dinheirinho depois que o Lula e a Dilma permitiram chegarem a outro patamar de vida. No entanto para a classe média branca e racista, negro fazer uso de seus ambientes e produtos de consumo vai desqualificar. Isso caracteriza segregação racial.

Nos Estados Unidos existe tipo de ocupações de shopping já existe desde 2010 com as mesmas características do Brasil e os mesmos tratamentos. A estratégia lá¡ foi silenciar, pra o mundo não saber.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

MÁRTIRES INOCENTES

Leonardo Sampaio
Hoje domingo, 29 de dezembro de 2013, é dia da memoria dos Mártires Inocentes, data em que se homenageia todas as crianças que foram assassinadas a mando de Herodes. Tudo isso se deu por causa do filho do casal José e Maria que foi dado o nome de Jesus, e que seria considerado o messias. Quando o Rei Herodes tomou conhecimento, reuniu os sacerdotes para saber onde ele havia nascido e todos afirmaram que foi na cidade de Belém na Judéia, como havia afirmado a profecia na terra de Judá.(mts 2.3-6). A matança das crianças se deu quando alguns magos do Oriente chegaram em Jerusalém e perguntaram: Onde esta o recém-nascido rei dos Judeus? Nós vimos a sua estrela no oriente e viemos para prestar-lhe homenagem.(mts 2.1-2). Essa conversa deixou o Herodes enfurecido, aí tentou subornar os magos mandando eles irem até Jerusalém investigar o lugar exato onde estava o menino, mas os magos encontraram outro caminho seguindo a estrela guia e assim ludibriaram o rei e esse quando se viu enganado determinou que todas as crianças de Belém e arredores com idade até dois anos seriam mortas.(mts 2.16). A intenção era que nesse meio Jesus fosse atingido, porque jamais iria admitir que alguém viesse para tomar seu poder. Não deu certo porque o casal José e Maria estava bem informados e voltaram para Israel, em seguida migraram para a Galiléia e tiveram de fugir para o Egito, país do continente africano onde nasceu Moises que lutou durante quarenta anos junto com um grupo de pessoas escravizadas em busca da terra prometida e foi ali no Egito que a família de Jesus Cristo foi acolhida pela comunidade e viveram lá naturalmente como cidadãos até a morte do rei Herodes e sua turma. Depois retornaram para a região da Galiléia e foram morar na cidade de Nazaré e assim Jesus escapou de ser morto quando criança.
Essa história me veio à mente hoje cedo, porque me lembrei de ontem 28/12/2013 quando estava no ensaio do Pastoril que conta a história do menino Jesus e do Reisado que conta a história da visita dos reis magos ao menino Jesus. O ensaio era no ESCUTA – Espaço Cultural Frei Tito de Alencar, nome que homenageia um jovem mártir da Ditadura Militar do Brasil. Mais o que me chamou atenção, foi quando ao final do ensaio chegou uma menina anunciando que viera só justificar porque não estava no ensaio, é que dois adolescentes foram assassinados próximo a sua casa e que os assassinos vieram para matar seu irmão, como não o encontraram atiraram em outros adolescentes, por isso, ela e toda a família se sentiam ameaçadas. Nessa ocasião ouvi um relato de outra criança, dizendo que as meninas da Fumaça estão proibidas de namorar com meninos da Entrada da Lua e vice versa, segundo ela quem entrar em qualquer um dos territórios será assassinado. Aí lembrei que essa situação de rivalidade entre essas duas comunidades já existiu na década de 1980 e só acabou quando dois jovens Antônio e Gilmar criaram a Quadrilha Junina TOMGIL (dos nomes Antônio e Gilmar é que gerou TONGIL) e a parir daí os jovens das duas comunidades passaram a dançar juntos, namorar e casar. Por coincidência ou destino, parei de escrever esse texto no primeiro parágrafo e fui à Entrada da Lua para o velório de uma amiga e assim que cheguei, encontrei um dos dançarinos da época, ai falei: cara, está voltando aquela rivalidade de violência, então ele começou a me contar como era a situação dele naquela período, disse que ia pra casa da namorada com um revolver na cintura e escondia no telhado da casa da namorada já que a casa era baixa e isso só teve fim quando os dois começaram a dançar na Quadrilha lá na Fumaça, aí os outros jovens os acompanharam. Ele findou a história contada em poucas palavras, preocupado, porque esta percebendo a volta de um ambiente de rivalidade e que o Planalto do Pici está muito violento, só nesse sábado 28/12/13, no período da tarde, houve três crimes de morte com adolescentes da comunidade.
Ao escrever essas duas histórias, lembrei também dos relatos das crianças na escola onde trabalho como professor, bem próximo a praça da juventude no Henrique Jorge. São raras ouvi das crianças história sobre coisas boas de acontecimentos nessa comunidade, sempre seus relatos estão ligados a violência com assassinatos, tráfego de drogas e o pior, os personagens e vítimas são familiares delas. Uma chega e diz: meu primo na semana passada foi assassinado e nesse final de semana foi meu tio, outras lembram: meu irmão foi assassinado, minha tia foi morta a bala, meu pai está no presídio, meu irmão foi preso por assalto, meu primo foi flagrado com uma arma e está preso, minha família esta escondida e saiu do bairro porque vieram pra matar meu irmão, não encontraram, agora qualquer um de nós pode ser alvo das balas, ontem mataram um jovem na minha rua, meu pai sofreu um atentado de vários tiros felizmente não acertaram, hoje estou triste porque minha mãe está foragida, no final da tarde mataram um bem ali, dois amigos foram assassinados na minha rua porque estavam assaltando, uma mulher foi assaltada na calçada da escola.
Diante de tudo isso, fico refletindo, nos cobram qualidade de ensino, mas não oferecem qualidade de vida a nossas crianças e seus familiares, aí me pergunto: Como essas crianças conseguem aprender tantas disciplinas escolares, chegando à escola de um ambiente desse? Na verdade fazemos o milagre acontecer. Até as crianças que não vivem na família esse clima, sentem o sofrimento das amigas e amigos da escola, sala, em trabalhos coletivos e tornam-se solidárias. Convivemos com crianças meigas, carentes de afeto, mas também rebeldes, quase sempre indisciplinadas, que às vezes tem como referência na vida, alguém que vive fora da lei, mas possivelmente um dia lhe fez carinho. Jesus Cristo buscou essas pessoas, para ajudá-los a se libertar de todas as formas de opressão, eram esses os seus preferidos. Quem se achar seguidor, que faça o mesmo, porque do contrário serás fariseus.
Todas essas histórias têm também algumas coincidências bastante visíveis. a) Jesus com sua família foi se refugiar na África; b) Os jovens e crianças vítimas da violência nessas duas outras histórias de Fortaleza – Ceará – Brasil, são em sua maioria afrodescendente; c) Em todas as três histórias, são pessoas pobres, humildes que sofrem perseguições dos poderosos, dos governantes que lhes negam terra pra trabalhar, morar e viver dignamente; d) Portanto são histórias de um mesmo povo.
Ser seguidor de Jesus Cristo é ter a coragem de enfrentar todos os poderes que oprimem, é combater os opressores e continuar a luta do Cristo Libertado por direitos iguais, com justiça, amor e fraternidade.
Muitos rezam em nome de Jesus e nada fazem pela libertação da humanidade, isso não é cristianismo e sim interesse próprio.

O sistema de injustiça institucionalizada pela globalização é o Herodes de hoje.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Fundamentos da economia solidária

Leonardo Sampaio

A economia solidária é baseada em fundamentos que você pode conhecer nesse texto feito especificamente para aprofundar o conhecimento de uma outra forma de economia que trás um sentido com a vida das pessoas e o planeta do ponto de vista da sustentabilidade. Vejamos a seguir em que essa economia é fundamentada.

1. A Economia Solidária se caracteriza por práticas fundadas em relações de colaboração solidária, inspiradas por valores culturais que colocam o ser humano como sujeito e finalidade da atividade econômica, em vez da acumulação privada de riqueza. Esta nova prática de produção, comercialização, finanças e consumo privilegiam a autogestão, o desenvolvimento comunitário, a justiça social, o cuidado com o meio ambiente e a responsabilidade com as gerações futuras.

2. A Economia Solidária é, pois, um modo de organizar a produção, distribuição e consumo, que tem por base a igualdade de direitos de todos os sócios dos empreendimentos. Os meios de produção de cada empreendimento e os bens e/ou serviços neles produzidos são de propriedade coletiva dos sócios e todos eles trabalham no empreendimento.
Igualmente, há associações de pequenos produtores ou prestadoras de serviços, individuais ou familiares, que trabalham em separado (cada um em seu estabelecimento), mas que realizam em comum a compra de seus insumos, a venda de seus produtos ou o processamento dos mesmos.

3. O que as iniciativas de Economia Solidária têm em comum é a igualdade de direitos de todos os sócios sobre a associação ou cooperativa, o que implica em autogestão, ou seja, a participação democrática (cada cabeça dispõe dum voto) de cada sócio nas tomadas de decisão. O que implica a inexistência de classes sociais no seio do conjunto da economia solidária. À medida que se organiza e se integra, a Economia Solidária dá lugar a uma sociedade sem classes, cujo desenvolvimento é necessariamente includente, pois os empreendimentos solidários se beneficiam com a inclusão de novos sócios ou a criação de novos empreendimentos, respeitando-se suas margens de sustentabilidade.

4. As manifestações da Economia Solidária são diversas, dentre as quais se destacam: coletivos informais, cooperativas de produção, de consumo solidário ou de serviços; organizações e grupos de crédito solidário e fundos rotativos; grupos e clubes de trocas solidárias com uso de moeda social (ou comunitária); recuperação de empresas pela autogestão; estabelecimento de cadeias solidárias de produção, comercialização e consumo, organização econômica de comunidades tradicionais, entre outras iniciativas.

5. A Economia Solidária é geradora de trabalho emancipado, operando como uma força de transformação estrutural das relações econômicas, democratizando-as, superando a subalternidade do trabalho em relação ao capital.
6. Além de geradora de trabalho emancipado, a Economia Solidária promove a difusão do consumo consciente, ético e solidário. Levar a sociedade a perceber o ato de consumir não apenas como uma questão de “gosto”, mas também como um ato ético e político: ao consumirmos um produto originado de um processo em que se explora o trabalho alheio, degrada-se o meio ambiente e as relações comunitárias, estamos mantendo esta forma de produção.

7. A Economia Solidária é, pois, uma alternativa ao mundo de desemprego crescente, em que a grande maioria dos trabalhadores não controla nem participa da gestão dos meios e recursos para produzir riquezas, e em que um número sempre maior de trabalhadores e famílias perdem o acesso à remuneração e fica excluído das possibilidades de um consumo que atenda dignamente as suas necessidades como ser humano.

8. A Economia Solidária busca reverter a lógica da espiral capitalista que promove crescente desigualdade social, econômica e territorial. Ela afirma a emergência de um novo ator social composto de trabalhadores associados e consumidores conscientes e solidários, portadores de possibilidades de superação das contradições próprias do capitalismo.

9. A Economia Solidária compartilha valores, princípios e práticas de um conjunto de lutas históricas das classes populares e de setores excluídos da sociedade. Dentre elas podemos destacar:
I) A luta dos trabalhadores contra a subordinação do trabalho pelo capital e valorização da propriedade/ gestão coletiva dos meios de produção, da solidariedade e cooperação mútua;
II) A luta da agricultura familiar e da Reforma Agrária pela democratização do acesso e uso da terra, da água e dos recursos genéticos;
III) A luta das comunidades tradicionais (quilombolas, indígenas, extrativistas, pescadores/ artesanais, etc.) pelo reconhecimento e valorização de conhecimentos e práticas tradicionais, valorização da diversidade étnica, promoção dos direitos territoriais e de sua autodeterminação;
IV) A luta pela reforma urbana, pela gestão coletiva dos espaços urbanos e da moradia, e reciclagem dos resíduos sólidos por meio da autogestão dos catadores e da participação popular no controle dos orçamentos e na definição das políticas públicas;
V) A luta das mulheres contra a discriminação e pelo reconhecimento do lugar fundamental da mulher e do feminino numa economia fundada na solidariedade;

VI) A luta ambiental pelo desenvolvimento sustentável, pela preservação dos recursos naturais e ecossistemas.

Dessa forma entendo que o mundo precisa caminhar nesse sentido, numa determinação de provar que outro mundo é possível.

A vida ficou mais linda quando te conheci

Leonardo Sampaio

Minha vida ficou mais linda quando te conheci,
quando olho no teu olhar,
vejo um brilho de sentimento recíproco.

Percebo que quanto mais nos aproximamos,
passamos a nos admirar
e sentir uma presença carente de aconchego,
um aconchego de idéias
e uma presença com um requinte de beleza,
essa beleza advinda da sabedoria,
essa sabedoria adquirida no mundo,
o mundo que me rodeia,
que às vezes não quer que enxergue além dele,
que não perceba outros mundos,
outros horizontes, que não tenha utopia.

O lindo dessa paixão é o seu crescimento,
é nos percebermos diferentes
e nos sentirmos iguais.
Dessa forma a paixão vai se apagando
e o amor vai se tornando verdadeiro,
livre,
não possessivo,
nem de dominação,
ele nos torna mais sensíveis às coisas do mundo.

O mundo é o espaço pra se voar ou ciscar,
pra se amar, libertar-se ou alienar-se.

E a beleza desse nosso amor
é ganhar os ares da utopia,
do mundo, dos sonhos, das realizações.
Foi nesse contexto que nos conhecemos,
nos envolvemos e constituímos seres coletivos,
nos institucionalizamos,
até como família.

Constituímos família?
Que família?
Família pra que?
Quem germinou?
Quem pariu?
Terá sido o bico do beija flor?
Ao tocar o semi da rosa?

É, talvez tenha sido coisa da natureza.
Natureza!
Mas são tantas naturezas!
Temos as naturezas do universo
e dos comportamentos humanos.

A natureza é essa beleza cósmica,
é a vida simbolizada por terra, água e luz
é o universo das coisas.

Naturezas humanas são os comportamentos!
Que são constantes ou mutáveis?
Pode também ser os dois?
E o que os faz constantes ou mutáveis?

Talvez seja a construção da vida,
as relações com o mundo.

Portanto é nessa construção
e relação com o mundo,
que esse amor se perpetue.
Beijos.



sábado, 14 de dezembro de 2013

Motel Calango em uma cidade invisível

Leonardo Sampaio

Aqui é apresentada a história do cotidiano de um povo que ocupa um espaço conhecido como Gargalo da Garganta e o Motel Calango. O relato é uma amostra do retrato de uma cidade “invisível” com suas mazelas de degradações humana, mesmo o fato acontecendo ao lado do Centro de Cidadania e Direitos Humanos Cesar Cals, instituição pública municipal de Fortaleza. 
O Gargalo da Garganta surgiu no final da década de 2000 como ponto de prostituição homossexual infanto-juvenil, quando as crianças eram aliciadas por adultos para a prática sexual no espaço de uma vacaria desativada, ali, havia exibições dos corpos em busca de afetividade. Já na década de 2010 há uma reforma com a chegada de mulheres trabalhadoras do sexo, atraindo novos clientes, o que leva naturalmente a se constituir uma nova relação de convivência com o espaço e com as pessoas. Pois é nessa construção de relações, que surge o Motel Calango, como alternativa para baratear as despesas dos clientes, já que não precisa pagar, porque o “Motel” fica localizado dentro do mato em um terreno murado onde foi furado um buraco no muro e cada um ou uma reserva seu espaço dentro do mato pra transar com seus clientes, com direito ao ar livre, ao verde das plantas, o perfume das flores e a sombra durante o dia ou às noites apreciando a lua e as estrelas em pleno prazer da vida, com orgasmo, alegria e felicidade. Único direito que não há como tirar.
O Gargalo e o Motel Calango são lugares de encontro 24 horas, envolvendo prostituição, drogas, crimes, roubos, assaltos, tráfego, aliciamento e boas relações de amizade. O público frequentador desse ambiente é jovem, homens e mulheres que moram nas favelas vizinhas e foram condenados pelo capital a viverem na extrema pobreza, elevada ao estagio de miséria. Uma miséria, produzida pela miséria do Estado e do capitalismo consumista e acumulador de riquezas. São famílias que visivelmente tem suas ancestralidades indígenas e afrobrasileira que sofrem a negação da cidadania como Ser humano. São pessoas que vivem exclusão histórica desde a invasão européia a estas terras do Brasil e impuseram políticas, religiões e costumes eurocentrista, chegando a escravizar índios, tomar suas terras e comercializar pessoas africanas como animais, para serem escravizados em fazendas e trabalharem na produção agrícola e em trabalhos domésticos no campo e na cidade, servindo aos senhores de engenhos e aos donos do capital e do poder político, sem nenhum direito de cidadania. Então o Gargalo da Garganta e o Motel Calango é apenas um recorte do resultado dessa exclusão após a escravidão e na atual sociedade de mercado e de consumo.
Esse lugar onde tudo isso acontece, fica às margens do Riacho Cachoeirinha onde havia as Cacimbinhas, musicada no Cd Jogueiros do ESCUTA, composição da Prof. Ângela Linhares/UFC que conta a história das famílias que lavavam roupas ali, enquanto as crianças brincavam nas águas cristalinas. O local hoje virou rampa de lixo, canal de esgoto e aterramento por parte da especulação imobiliária, sufocando a vida humana, a flora e fauna no oeste da cidade. Era um dos espaços que deveria ter sido construído o Projeto Parque Rachel de Queiroz, preservando todo o meio ambiente e criando espaços adequados para uso da comunidade com melhoria da qualidade de vida. O poder público e o privado são abusivos e irresponsáveis em reação ao meio ambiente na cidade.
Essa é uma história real, crua e nua que ainda acontece em pleno século XXI, ao lado das instituições religiosas, públicas e educacionais em que todos fecham os olhos tentando torná-la invisível, discursando ou pregando sobre: justiça, amor, fraternidade, igualdade e desenvolvimento, o que torna o discurso hipócrita, porque os fatos expostos revelam o cinismo de uma sociedade apodrecida pela ganância, o egoísmo e ainda expõe a contradição entre a escrita, a fala e a execução.
Não se pode falar de justiça e desenvolvimento enquanto essa realidade estiver presente.



14/12/2013